quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mais Mito da Redenção: O Senhor dos Anéis e Homem de Ferro

No post passado, utilizou-se uma cena crucial em Star Wars IV – O Império Contra-Ataca (1980) para mostrar que nela se manifestava mitologicamente a ideia de que no eterno combate entre o bem e o mal muitas vezes essas duas categorias não são tão antagônicas. Não o são porque estão dentro de nós, são partes de nós mesmos. Não é à toa que o vilão da cena é pai do mocinho. Diante da revelação bombástica, que leva o protagonista a uma crise, ele se vê obrigado a mergulhar no abismo de Cloud City. É uma mensagem de que essa recolha interior é um passo vital para nosso desenvolvimento, o que de fato ocorrerá no episódio seguinte da saga, O Retorno de Jedi (1983).
Como exercício, ficou para o leitor dO Magriço Cibernético a análise do vídeo acima, edição feita de dois episódios da trilogia O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001) e As Duas Torres (2002). Nele, vê-se o embate entre o mago Gandalf e o demônio Balrog, entidade que remonta a tempos perdidos. É interessante notar que se trata de um confronto inevitável, apesar de há muito temido pelo mago. É também valioso perceber que se passa dentro de uma montanha, símbolo comumente associado às profundezas do ser. Além disso, os anões haviam cavado muito além do aconselhável, o que liberou aquela malignidade – há conotações morais nesse ponto. Vale também observar como a força desse monstro está ligada ao fogo, habilidade que Gandalf domina. De fato, o fogo tem uma vasta simbologia, sendo ao mesmo tempo elemento purificador e destruidor, ao mesmo tempo o ingrediente que leva evolução ao homem (basta lembrar o mito de Prometeu), mas pode também ser a sua condenação (basta lembrar o mito do Inferno). Por fim, a ponte pela qual A Sociedade do Anel tem de passar, Khazad Dum, é mais resistente do que aparenta. Transforma-se, portanto, no perfeito símbolo da travessia, representação máxima e elevada da vida. O lado lógico diz que a existência é absurda, impossível, inútil, perigosa (“Viver é muito perigoso”, já dizia Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas (1956)), mas, se for levada com sabedoria e coragem, torna-se algo factível.
A mensagem que fica desse episódio é a de que precisamos enfrentar nossos piores medos e obstáculos. Sairemos feridos até, mas, nunca é demais repetir, desse sofrimento se conseguirá o engrandecimento como indivíduo. Trata-se, no fundo, do mito do herói em sua jornada interior de amadurecimento e fortalecimento. É o mesmo processo que se vê no vídeo a seguir, de Homem de Ferro (2008):
No vídeo acima percebemos o resultado de tudo o que se passou com Tony Stark, um playboy de enorme talento e inteligência, mas, frise-se, um playboy. Seu caráter encontra eco em muitos jovens de hoje, que vivem uma era de hedonismo inconsequente exacerbado. Com certeza muitos deles, alienadamente, se tivessem o dinheiro do protagonista, teriam o mesmo estilo de vida: festas, carrões, mulheres. Entretanto, a história do ricaço muda quando se vê preso a uma caverna no Afeganistão. Como o bíblico Jonas no estômago do peixe, esse mergulho serve para o amadurecimento em busca de um emprego mais útil de suas habilidades. Sua saída da caverna, que também possui algo de platônico, é uma caminhada para a luz da razão, da procura altruísta pelo bem-estar alheio.
Enfim, três filmes de estrondoso sucesso (Star Wars, O Senhor dos Anéis e Homem de Ferro) mostram de maneira convincente que o mergulho no precipício, nas profundezas das cavernas, nada mais é do que um passo doloroso, mas valoroso para o engrandecimento como pessoa. Não se entende por que a nossa sociedade tem medo da dor, do sofrimento que vem para a melhora de nosso caráter.

domingo, 8 de julho de 2012

Star Wars e O Senhor dos Anéis: Mito de Redenção

Há alguns meses O Magriço Cibernético referiu-se à presença constante de mitos, ou seja, narrativas que, de maneira simbólica, metafórica, alegórica, acabam nos passando um ensinamento, em geral ligado à nossa existência. Sua estrutura, portanto, é alógica, não podendo ser entendida literalmente. Hoje vamos trabalhar, portanto, com dois exemplos famosos desse fenômeno. 
Como exercício, o primeiro vídeo a ser analisado é uma cena de Star Wars – Episódio V – O Império Contra-Ataca (1980). Vemos nele o tão esperado embate entre o mocinho Luke Skywalker e o vilão Darth Vader em um inóspito local de maquinário, ferro e vento de Bespin. É bastante sintomático nesse conflito o fato de a força do mal estar de preto, não possuir um rosto, mas uma máscara, e perder o caráter humano, pois é mais máquina do que gente. É bastante sintomático também o representante do mal parecer acuar e ser mais eficiente do que o representante do bem. É bastante sintomático ainda este ter um rosto de jovem. Faz-se assim uma ligação com o público-alvo do filme, que acaba se identificando com a personagem.  
Entretanto, tudo o que se apontou até aqui daria a entender que se trata de um clichê requentado, o que seria uma observação inadequada. Em primeiro lugar, os mitos, como já fora dito em posts anteriores, lidam com estruturas humanas que em qualquer parte do mundo e em qualquer época acabam sendo as mesmas. Assim, utilizam-se sempre os mesmos elementos, os mesmos motivos narrativos. O que importa na avaliação não é o conteúdo, mas como ele é passado ao receptor. Em segundo lugar, há na cena em questão algo que foge rotineiro quando se fala na “eterna luta do bem contra o mal”: o parentesco entre essas duas entidades.
De fato, quando se usa a famigerada expressão “luta do bem contra o mal”, vem logo à mente a ideia maniqueísta de que são duas categorias extremamente opostas. Foge desse padrão, portanto, a confissão de que o representante da positividade fora gerado pelo representante da negatividade. Entretanto, não é uma ideia absurda, que escapa do comum dos fatos. Vemo-la, por exemplo, nas ações que levam a redenção ao protagonista de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, conto de Sagarana (1946), de Guimarães Rosa. Vemo-la também em Til (1872), romance de José de Alencar que também lida com a ideia de recuperação e que está na atual lista de livros do vestibular da FUVEST-UNICAMP 2013.
 Parece então que a grande mensagem é que o mais importante desse combate não é a eliminação de uma ou de outra força, mas a busca de elevação, de resgate. Lógico que, para que isso ocorra, tem que se estar preparado, tarefa para a qual Luke Skywalker não estava. Daí perder a mão e, mais que isso, o choque diante da revelação. Sua única saída foi mergulhar no abismo, símbolo também presente no “A Hora e Vez de Augusto Matraga” e Til. Essa imersão é uma metáfora do mergulho que sempre se faz em nosso próprio eu naqueles momentos de crise para que se saia dela mais fortalecido. É o que de fato Luke Skywalker irá realizar e que se tornará tema do filme seguinte, O Retorno de Jedi (1983). É o que de fato todos nós fazemos em nossos momentos de dificuldade extrema.
Por fim, como exercício, O Magriço Cibernético deixou o vídeo seguinte, edição de uma das cenas mais emocionantes de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (2001). Com base nele, o que você é capaz de interpretar? Voltaremos a esse assunto na próxima quarta-feira.

domingo, 1 de julho de 2012

Velhice: para que tocar nesse assunto?


O tema de hoje dO Magriço Cibernético é inusitado porque foge do universo de valores de seus leitores. Trata-se da velhice, um assunto cuja simples nomeação já é difícil. Prefere-se por aí a expressão politicamente correta “melhor idade”, como se essa substituição fosse eliminar a carga negativa que a outra palavra traz. Para reforçar o que se diz, basta lembrar uma imagem que circulou pelo Facebook em que se contestava a ideia de que bandas como Beatles, Aerosmith, Iron Maiden, Rolling Stones fossem velhas – o correto seria chamá-las de clássicas. Por fim, em reportagens sobre mercado de trabalho fala-se muito de empresas que se incrementam ao contratar pessoas “mais experientes”. A famigerada palavra outra vez evitada.
Por que fugir do termo “velho”? Parece contraditório, ainda mais que vivemos em um país cuja população idosa se torna mais numerosa. Mas estamos na sociedade do descartável, da novidade acima de tudo. Ter idade avançada é não acompanhar isso e acabar ficando à margem. De fato, em quantas famílias os anciãos são encostados? Não se fala com eles, argumentando-se que têm a mesma conversa de sempre. O motivo, entretanto, é simples: nunca se dá verdadeira atenção a eles, faz-se de conta que se está dialogando com eles, o que acaba impedindo a alteridade, a troca de informações, valiosa para o desenvolvimento mútuo.
Não se está ignorando que a chegada da velhice traz muitos aspectos negativos, como a decrepitude física, bem observada por Drummond em “Dentaduras Duplas”, um dos momentos mais ácidos de Sentimento do Mundo (1940). Tais são bastante conhecidos. Mas o estranho é que não se comenta na mesma proporção os defeitos da infância, da adolescência e da juventude. Quando são mencionados, muitas vezes é com carinho e benevolência.
Enfim, o que temos é um mundo centrado na juventude. Basta ver quem aparece feliz nas propagandas de refrigerantes, cervejas, sucos, cremes dentais, adoçantes, caldos de galinha, automóveis. Dentro dessa lavagem cerebral, fica praticamente impossível enxergar valores positivos na velhice, que não é mais vista como fonte de uma sabedoria adquirida com o acúmulo de experiências de vida, imagem muito bem sintetizada na figura do Velho do Restelo, dOs Lusíadas (1572), de Camões. Hoje, gente idosa é ridicularizada.
Fica, portanto, consagrada a frase “envelhecer é uma merda”, tão famosa que até sua autoria se perdeu – dizem que é de Paula Burlamaqui, Rubem Braga e até, para variar, Clarice Lispector. De fato, envelhecer é uma merda porque a vida é uma merda. Ou melhor, vivemo-la como tal. Enquanto isso, vamos alimentando uma esperta indústria estética de botox, cirurgias plásticas, tinturas e quejandos. Mas será que a essência da vida está na barriga rasgada, no vigor físico, na ausência de rugas ou de cabelos brancos, na ereção eficaz?
Não temos a sabedoria simples de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935):

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

De acordo com esse poema, a chegada do nosso outono (a velhice), que já tem dentro de si a ideia de inverno (morte) deve ser acompanhada apenas da preocupação com o momento presente. Não se deve pensar mais na primavera (juventude), que já não nos pertencerá. A velhice é, portanto, o momento das folhas amarelas, que não são nem melhores, nem piores que as verdes. Apenas diferentes.
Aceitar as transformações do tempo é agir sabiamente. Mas quem o consegue? Somos tão apegados à vida que paradoxalmente não sabemos usufruí-la. Somos tão ligados à existência que a espichamos em detrimento dela própria, fazendo-a perder a intensidade. Talvez por isso desvalorizemos a velhice, pois ela é sinal de que o fim está próximo. Sinal de que não aproveitamos o quanto queríamos. Sinal do "agora já é tarde". Sinal do inexorável. Se, ao contrário,tivermos uma bem planejada passagem na terra, com cada fase aproveitada adequadamente, poderemos mudar até a nossa ideia de funeral, como no vídeo apresentado acima, do filme Sonhos (1990), de Akira Kurosawa. Ao invés da soturnidade, o festejo, a comemoração do final de um espetáculo simples e grandioso: a vida. Mas, como o próprio nome do filme indica, isso é uma fábula, um sonho, uma quimera. Infelizmente.

domingo, 24 de junho de 2012

Mais A Cidade e as Serras: o Sebastianismo - ainda um mito atual?

A Cidade e as Serras (1901), de Eça de Queirós, apesar de não ser um livro extremamente empolgante, é rico em temas. No post da semana passada, por exemplo, falou-se da crítica que faz ao estilo de vida moderno, que se mostra desumano por nos massacrar num fluxo de atividades alienantes. Neste post, vai-se discutir outro ponto importante: a referência ao mito do sebastianismo.
A origem desse termo está na figura de D. Sebastião (1554-1578), décimo sexto rei de Portugal e que desapareceu nas areias do Marrocos, na famosa batalha de Alcácer Quibir. A nação portuguesa deparou-se então com um imenso problema: como o monarca não tinha esposa e filhos, não havia deixado herdeiros; além disso, ninguém vira o corpo dele. Um imbróglio estava formado. Por um lado, o rei Felipe da Espanha, parente mais próximo do desaparecido, assumiu o trono, pondo fim ao gigantismo do império português, que agora fora anexado ao domínio hispânico. Por outro, fica entre o povo a esperança do retorno do rei, que traria de volta a grandiosidade da nação. E até hoje o lusitano, principalmente o habitante das pequenas cidades de Portugal, alimenta esse anseio da volta do que passou a ser chamado de o Desejado, o Encoberto e até mesmo São Sebastião. A consequência desse processo é a paralisia em que se viu mergulhada aquela nação, um dos motivos de sua decadência.
Entretanto, na forma como a questão é colocada, tudo fica como se fosse um tema ligado à conjuntura ibérica. O que nós, brasileiros, temos a ver com isso? E como A Cidade e as Serras se torna útil em nosso contexto cultural? Uma pista para se chegar à resposta dessas indagações está em uma expressão usada no parágrafo anterior: “o retorno do rei”. Faz lembrar uma das obras da trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mais especificamente o terceiro volume, O Retorno do Rei (1955).  Nota-se, portanto, que se está lidando com elementos que ultrapassam o contexto português.
A ideia do volta do governante, recuperando uma época gloriosa, já está, por exemplo, no mito clássico da Idade do Ouro, que relata um tempo maravilhoso em que o homem convivia com o deus Saturno. Este, ao partir, abandonou o seu conviva à imperfeição crescente, fazendo-o decair para a Idade de Prata, depois para a de Bronze e sem seguida para a de Cobre e Ferro. Cria-se, pois, a expectativa pelo restabelecimento dessa época fabulosa.
Esse desejo fará eco em um dos mais importantes mitos do cristianismo, que é o retorno de Cristo. Essa crença se mistura à profecia bíblica de Daniel, a qual fala de um Quinto Império, que lutaria pela implantação do Reino de Deus. Na cabeça do português, esse império, que sucederia o babilônico, o egípcio, o grego e o romano, só poderia ser o lusitano, que teria na figura de seu rei o defensor da implantação do governo santo. Essa história vai-se misturar a outro mito cristão, dessa vez medieval, que é o do Milênio, uma ordem de mil anos que, dependendo da versão, prepararia caminho para o Reino de Deus ou seria o próprio império divino.
 Nesse caldo há de se colocar mais um importantíssimo ingrediente, presente no vídeo acima, final de Excalibur (1981). Nele, o lendário rei Arthur pede a Percival, o mais puro dos cavaleiros da Távola Redonda, que jogue a espada, a qual dá nome ao filme, em um lago, pois um dia um rei surgiria e ela seria levantada novamente (“one day a king will come and the sword will rise again”). A vontade se cumpre em uma cena cheia de belas simbologias muito bem manipuladas pelo diretor John Boorman.
Assim, quando Jacinto, protagonista de A Cidade e as Serras, surge do estrangeiro e melhora a situação do povo de suas terras, ele passa a ser chamado de Dom Sebastião, tornando explícita a relação com o mito aqui analisado. Curiosamente é também nomeado Pai dos Pobres, expressão fortemente associada a outra figura lendária, desta vez da História do Brasil: Getúlio Vargas. Mas não foi apenas esse presidente que foi tocado por esse mito. Ele já se mostrou presente na revolta de Canudos, por exemplo. Deve-se lembrar que os revoltosos, segundo relatos, criam que D. Sebastião iria surgir no sertão da Bahia para lutar contra a maligna “república ateia”.
Enfim, por meio dessas observações nota-se que esse romance de Eça de Queirós lida com temas bastante atávicos da condição humana, da qual nós, brasileiros, não estamos isentos. Somos seres da esperança, que é o que nos mantém em pé principalmente nos piores momentos. Quem viu, por exemplo, o recém-lançado Prometheus (2012) sabe muito bem do que se está falando. Toca, pois, no que o Velho do Restelo, de Os Lusíadas (1572), de Camões, chamava de nossa “mísera sorte” e “estranha condição”.

domingo, 17 de junho de 2012

A Cidade e as Serras: século XIX = século XXI?

A Cidade e as Serras (1901), de Eça de Queirós, é uma obra que não deveria estar na lista de livros da FUVEST-UNICAMP 2013. A começar, é um romance incompatível com a capacidade do estudante que acabou de terminar o Ensino Médio. Seria muito mais válido, se a intenção é avaliar a compreensão do estilo do grande escritor português, que se colocasse O Primo Basílio (1878), livro infinitamente melhor e até mais empolgante. Até poderia ser admitido O Crime do Padre Amaro (1875).
Outro problema do referido romance é apresentar-se como um ótimo tema que foi esticado para além da conta. Como se sabe, ele é o desenvolvimento do conto “Civilização”, do mesmo autor. A diferença é que na pequena narrativa Jacinto, o protagonista, era morador de Lisboa, ao contrário do texto aqui discutido, em que esse indivíduo reside em Paris.
Acrescenta-se a isso o fato de haver uma irregularidade de estilo. A primeira metade passou pelo crivo da revisão do autor, que ele próprio considerava uma fase importantíssima na confecção de um texto. Infelizmente Eça faleceu antes que se entregasse à tarefa de burilamento do estilo da segunda metade, que ficou a cargo de um amigo, Ramalho Ortigão, que não tinha a mesma competência queirosiana. Isso impediu o romance de talvez se tornar uma das melhores obras da literatura em língua portuguesa.
De fato, o livro se vale pela primeira metade, que tem momentos magistrais, como o incomparável capítulo IV, em que ocorre o jantar no qual será degustado o tão esperado peixe da Dalmácia. Nesse episódio o escritor reúne personagens que representam os diferentes setores da alta sociedade parisiense, sobre os quais derrama sua verve. E nesse ponto, deixando de lado os anacronismos, A Cidade e as Serras acaba se tornando bastante atual. É um ponto que merece melhor explicação.
Jacinto é o que hoje seria considerado uma mistura de tecnófilo com nerd ou geek. Sua equação para a felicidade – suma potência + suma ciência = suma felicidade – reforça essas qualificações, pois o mostra como um apaixonado pelo universo da tecnologia e do conhecimento. E aqui essa narrativa do final do século XIX parece profetizar valores imperantes nesse começo do século XXI.
Recentemente se atingiu o feito de a maior parte da população mundial viver nas cidades, o que indica que os grandes centros urbanos e seu estilo de vida se firmaram como o ideal para o bem-estar humano. Entretanto, como vaticinava o capítulo VI de A Cidade e as Serras, isso tudo pode passar apenas de uma ilusão, pois esse ambiente, criação do homem, paradoxalmente não se mostra humano, já que, como declara Zé Fernandes ao seu desencantado amigo Jacinto, acaba oprimindo o seu morador.
Esse sufocamento pode ser vislumbrado por meio do vídeo acima, trecho de Koyaanisqatsi (1982), do diretor Godfrey Reggio. Nele conseguimos ver o perigo que é entregar a um filósofo a confecção de um filme. Com uma trama nada convencional, se é que ela existe (o mesmo se pode afirmar sobre A Cidade e as Serras), sentimos após a sequência de cenas que representam o cotidiano urbano uma vertigem que é um soco em nosso estômago existencial. Notamos o contínuo fluxo de pessoas e coisas (ressaltado pela música minimalista de Philip Glass), o que consiste no recurso cinematográfico da comparação. A partir dos 5 minutos de exibição a intenção do autor se torna mais evidente. É quando vemos os cidadãos se espremendo para entrar em filas de escadas rolantes e logo após aparece a linha de produção de salsichas. A semelhança que se estabelece é de tirar o fôlego, principalmente porque revela que estamos vivendo uma rotina de mecanização e automatização que atinge até mesmo os momentos de lazer. E é importante notar no vídeo como tal é passada de pai para filho. Consequência: estamos perdendo a vida. Ou como já dizia Drummond em Sentimento do Mundo (outra obra da lista de livros da FUVEST-UNICAMP 2013), especificamente no poema “Os Ombros Suportam o Mundo”: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação.”
Enfim, um dos méritos de A Cidade e as Serras (assim como de Koyaanisqatsi) está em mostrar que o sonho positivista de que a ciência e a tecnologia trarão a felicidade corre um sério risco de fracassar. Não se está falando apenas das implicações ambientais, que por si sós já são bastante preocupantes. Há também as existenciais. Igualmente prementes.

domingo, 10 de junho de 2012

A magia da interpretação de textos: o dito que não é dito

A compreensão de um texto exige a mobilização de várias competências, entre elas a capacidade de perceber o que não está sendo dito explicitamente. Nesta semana O Magriço Cibernético se deparou com dois exemplos desse fenômeno.  O primeiro deles é a canção “Non ho l’hetà” (Ainda não tenho idade), apresentada em 1964 pela italiana Gigliola Cinquetti, vencedora do Festival Eurovisão daquele ano. O que pode ser analisado de uma peça tão inocente, em que uma menina de 17 anos declara não estar na idade para as aventuras amorosas, nem mesmo para andar sozinha com o seu amado, e por isso requer que seu querido espere o tempo adequado?
Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a necessidade de pedir pela preservação do ideal romântico é sinal de que se estava vivendo uma época em que tal já não era mais respeitado por todos. Se o fosse, estaria no campo dos valores óbvios e consuetudinários, portanto, não haveria a necessidade da solicitação. Assim, a música é um indício de uma pureza que já revelava decadência. Basta lembrar que ela foi apresentada em um período bastante conturbado: na década anterior, o filme Juventude Transviada (1955) apresentava James Dean como ícone da rebeldia com causa. Abria-se caminho para que os jovens questionassem o sistema de valores, o que iria desembocar no 1968, o famoso ano que ainda não acabou.
No meio de toda essa agitação social, de toda essa convulsão estava a meiga canção da italiana. Ela revela um esforço de alienação que no fundo põe em foco, para quem é mais sagaz, justamente o que se está tentando esconder. Aliás, toda forma de fuga nada mais é do que um conflito mal resolvido com o presente: o árcade, apaixonado pelo campo, não se sentia bem no novo ambiente urbano que via à sua frente; o romântico, perdido nos sonhos e idealizações, era um inadaptado ao mundo de derrocada dos ideais da Revolução Francesa; o simbolista, sonâmbulo hipnotizado pelas forças do inconsciente, recusava-se a aceitar o mundo cientificista do final do século XIX. A premiação dada em 1964 pode, então, revelar o desejo de setores preocupados com as mudanças que estavam fervilhando.
Curiosamente, no mesmo ano em que surgia na Europa “Non ho l’hetà”, nos Estados Unidos Pete Seeger apresentava o seu “What did you learn in school today”:
Nessa música, vemos uma sequência de ensinamentos que foram passados a uma criança na escola. Até esse ponto, nada de chamativo. Mas o interessante é que há uma ironia fora do comum, pois não se estabelece no nível do discurso entre adulto e infante, mas em um plano mais sofisticado, entre o texto e o seu receptor. Tal só pode ser captada por quem tem conhecimento do mundo em que estamos inseridos, que não corresponde ao que foi transmitido ao menino da composição. Washington nunca mentiu? Soldados raramente morrem? A Justiça não tem fim? Então se descobre que se está diante de um processo de doutrinação, mais cruel porque é feito de maneira afável, gentil – a criança é chamada amorosamente de “dear little boy of mine”. Em suma, o caráter terrível dessa lavagem cerebral é que ela se faz corrompendo a mais inocente das criaturas para que o sistema errado e injusto se perpetue.
Assim, por esses dois exemplos percebe-se que a compreensão de um texto vai além da mera decodificação dos elementos que o constituem. Trata-se de um processo muito sofisticado que requer até que se enxergue o que não está sendo exposto ou mesmo o que não se quer que se seja exposto. Como obter essa habilidade? Prática de leitura. Nunca é demais repetir essa receita.

domingo, 3 de junho de 2012

Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett

O vídeo acima apresenta a música Vltava (1874), trecho da obra Má Vlast, do tcheco Bedřich Smetana. Trata-se de um poema sinfônico que narra o que se encontra no curso do rio Moldava (Vltava, na língua da República Tcheca), o qual nasce das águas de dois cursos calmos, o “frio” e o “quente”, que se juntam, atravessam bosques e prados, encontram um casamento campestre, alargam-se, passam por Praga, a capital desse país, até que somem ao se integrar ao rio Elba. O interessante é que durante a execução do vídeo podem ser vistas diversas imagens daquela nação.
Fica claro, portanto, que se está diante de uma obra nacionalista e a tradução do nome dela (“má vlast” quer dizer “minha terra”) só vem reforçar esse ponto. E na hora surge à mente o “Canção do Exílio” (1843), de Gonçalves Dias, que se utiliza da mesma expressão:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Nota-se, então, que se vivia uma onda nacionalista, que deve ter atingido também Almeida Garrett, pois o mesmo sintagma se encontra no título de sua obra, Viagens na Minha Terra (1846), leitura obrigatória para os vestibulares da FUVEST e UNICAMP 2013. Entretanto, há um ponto que torna o autor português superior ao tcheco e ao brasileiro na confissão de seu patriotismo.
Smetana e Dias declaram uma paixão por seus países que se concentra na valorização da natureza. Garrett ama alguns pedaços de sua pátria – mas não todos. Tem uma visão crítica – talvez saudosista – ao apontar defeitos em alguns momentos da viagem que faz de Lisboa a Santarém. Entretanto, a superioridade do português não está em apontar falhas, mas em apresentar uma visão crítica, o que o distingue da avalanche nacionalista que varria o mundo romântico. Parece que o autor, colhido por essa corrente, não apenas se entregou a ela, mas passou a observar atentamente o que o carregava. Ou pelo menos passou a sentir. Explica-se.
Enquanto faz seu passeio, Garrett, como se sabe, vai tecendo comentários, muitos deles digressivos, que revelam seu vasto repertório cultural. Tornara-se moda esse tipo de narrativa em que o autor não parece seguir um rumo fixo, linear. Encontramo-la no Viagem ao Redor do Meu Quarto (1872), do francês Xavier de Maistre, assim como no Viagem Sentimental (1768), do inglês Lawrence Sterne. Mais tarde aparecerá no Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Mas para alguém incapaz de acompanhar a intensidade de suas referências histórico-literárias, esse fluxo de conteúdo pode provocar afogamento. A salvação parece ser nadar para a margem e fugir da correnteza. Em outras palavras – abandonar a leitura. Entretanto, como já provara Sete-de-Ouros em “O Burrinho Pedrês”, conto de Guimarães Rosa que abre Sagarana (1946), o mais sábio pode ser entregar-se à corrente. Fazer o mesmo que o autor, o que lhe possibilitou enxergar um problema que não se restringiu ao âmbito de sua pátria.
A partir do capítulo XI, quando o índice de digressões diminui, Viagens na Minha Terra passa a narrar a história de Carlos e Joaninha, primos que se amam. Ambos são netos de D. Francisca, que carrega uma misteriosa dor tão grande que a fez chorar tanto a ponto de ficar cega. Há ainda a presença aziaga de um frade, D. Dinis de Ataíde, exemplo do mais rígido e coerente apego à religiosidade cristã. Como pano de fundo, a guerra civil em que Portugal estava mergulhado: realistas (aliados de D. Miguel) contra constitucionalistas (aliados e D. Pedro IV, o nosso D. Pedro I). Os temas épico e lírico, entretanto, parecem mais ligados entre si do que parece.
Carlos, conquistado na universidade pelas doutrinas novas, acaba se desentendendo com D. Dinis, religioso que inexplicavelmente exercia forte influência sobre D. Francisca e seu neto.  Exila-se na Inglaterra, onde se apaixona sucessivamente por três irmãs britânicas. A última, a que lhe sobrou, é Georgina. Deflagra-se a guerra civil em Portugal e o jovem se alista nas tropas de D. Pedro, pois este defende a modernidade que o protagonista tão bem conheceu em seus estudos e na terra estrangeira que o acolhera.
O combate enfim concentra-se em Santarém, o que faz com que a personagem principal volte às suas origens. É quando reencontra a paixão antiga, Joaninha. É quando também se defronta com o soturno D. Dinis. O clima de tragédia só tende a aumentar. Mas mais não se vai falar, para não estragar o prazer da leitura da obra. A preocupação deste post é outra: guiar a compreensão do texto.
O grande problema de Carlos, que se vê indeciso entre amar Joaninha, sua companheira de infância, e Georgina, que conhecera em terras ditas mais civilizadas, parece representar o drama de Garrett e do próprio Portugal: a indefinição entre tradição e modernidade. É um tema que de uma forma ou de outra está em outras obras da lista de livros da FUVEST-UNICAMP. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas está na apresentação de uma elite brasileira que abraça o moderno discurso liberal, mas que ainda se mostra escravista. Em Til (1872) estará na dura decisão de Miguel de abandonar tradições atávicas como o cigarro de palha e o costume de falar mecê para evoluir e unir-se a Linda, seu grande amor, e abandonar a divina Berta, superior a qualquer outra personagem. Em A Cidade e as Serras (1901) estará no embate entre Paris, capital da modernidade da civilização, e Tormes, recanto aprazível da tradição portuguesa. Enfim, essa dispersão só põe em foco o fato de que esse conflito entre passado e futuro não foi resolvido.
Esse dilema se torna mais crítico quando se percebe que o impulso nacionalista de Viagens na Minha Terra segue uma moda que está em outros países. Monta-se então um paradoxo: é-se nacionalista porque outros países também se mostraram; faz-se uma arte patriótica que segue o padrão aberto por outras obras de outros países. Então, onde está o nacionalismo? E essa questão ainda é atual. Georgina está em terras portuguesas por razões humanitárias, cuidando dos feridos que a guerra, alimentada por ideais de sua Inglaterra, havia provocado. Lembra a dúvida: a ajuda humanitária dos países “evoluídos” é socorro ou intromissão? Não é o que estamos vendo no Oriente Médio, assolado há pouco tempo pela Primavera Árabe? O que é a ajuda dos EUA ao Iraque e Afeganistão?
Enfim, Garrett parece ciente de que esse choque nos empurra para uma situação periclitante e que está acima do mero embate entre tradição e modernidade. No fundo, como bem profetizou D. Dinis, nenhum dos dois lados é vencedor, pois nenhum está preocupado com grandes valores humanos. Quando se vê que Carlos, tanto tempo indeciso entre Joaninha (tradição lusitana) e Georgina (modernidade importada dos países “desenvolvidos”), acaba caindo em um suicídio moral, transformando-se em um barão, enxergamos o tipo de sociedade que acabou sendo construída para nós. Vivemos em um mundo em que os ideais nobres foram solapados e substituídos por um prosaísmo vulgar. Não aquele tão bem cantado por modernistas como Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Clarice Lispector, entre outros. Mas o que nos faz aceitar a corrupção de valores éticos, a dilapidação da decência. Aquele que nos faz aceitar que a integridade seja sepultada, que líderes políticos mintam e ainda assim sejam reeleitos. Porque o que mais importa é o prosaísmo vulgar, a economia. Olhemos nossa História recente. Grandes líderes caíram não por causa dos valores humanos, mas porque não souberam manter a economia firme: Bush, Blair, Berlusconi, Mubarak. Não é mais o coração que nos governa, mas o bolso. Os barões assinalados, nobres, de Camões não valem mais. Agora os barões endinheirados de Garrett é que nos comandam.