quarta-feira, 21 de junho de 2017

Variedades linguísticas - parte 2: linguagem culta e linguagem coloquial

No post anterior deve ter ficado claro que não há português errado ou correto: o que existe é um uso adequado ou inadequado da língua. Dessa forma, o conceito mais importante para se lembrar nos vestibulares, no ENEM e em toda vida é o de adequação de linguagem. Nesse contexto, o usuário da língua portuguesa precisa se mostrar um poliglota, ou seja, alguém capaz de entender e de se comunicar dentro das variedades linguísticas que o nosso idioma oferece. Garantidos esses pressupostos, pode-se dar atenção agora a duas das variantes mais importantes do português: a norma culta e a norma coloquial.
A primeira variedade, velha conhecida, é a ensinada nas escolas, acabando por ganhar a fama de “português correto”. Sua grande característica é estar apegada à Gramática Normativa, cheia de regras de colocação pronominal, regência verbal, regência nominal, concordância verbal, concordância nominal. Pode parecer uma vertente mais trabalhosa de dominar, mas com esforço é passível de ser conquistada.
Apesar de ser uma entre as inúmeras manifestações da língua portuguesa, a norma culta é importante por ser a ferramenta de acesso a documentos valiosos em nossa cultura, como leis e textos científicos. Sabê-la é, portanto, uma forma de garantir direitos e cidadania.
Além disso, o padrão culto busca a universalidade, ou seja, procura ser entendido em qualquer local em que se use o nosso idioma. Em razão disso, é interessante, portanto, que ele seja usado, por exemplo, em leis, pois garante que todos tenham acesso a essas informações.
Outra característica da norma culta é a redundância. Ela é marcada, por exemplo, pela pluralização de vários termos, como em “os livros azuis estão na mesa”.
Por fim, ela é a variedade linguística mais prestigiada, pois costuma ser associada ao falar das pessoas das classes altas. E aqui cabe lembrar um fato negativo: o preconceito linguístico. Infelizmente, em nossa sociedade, quem não usa essa variedade corre o risco de ser discriminado.
A outra forma linguística é a norma coloquial, geralmente desprestigiada por ser alvo de preconceito. Comportamento infundado, pois, primeiramente, esse código linguístico não é um vale-tudo, uma linguagem cheia de erros e sem regras. Um exemplo de sua regularidade está no emprego do pronome “mim” como sujeito de verbo no infinitivo, tal qual aparece na frase em que Macunaíma, protagonista do romance homônimo de Mário de Andrade, dirige-se a Curupira:

– Meu avô, me dá um pedaço de carne pra mim comer?

Essa construção, extremamente abominada por muitos usuários de nosso idioma, é vista por grandes escritores modernistas, entre eles Mário de Andrade e Manuel Bandeira, como uma das mais legítimas e bonitas da língua portuguesa falada no Brasil. E ela não está incorreta, pois é sistemática e regrada. Prova disso é que várias pessoas do nosso país a usam. Se fosse errada, um ou outro falante a utilizariam.
Outra prova da validade desse fenômeno é que ele é sistemático, ou seja, obedece a um conjunto de regras: PRA + MIM + Verbo no Infinitivo: pra mim comer, pra mim escrever, pra mim passar. Corrobora essa regularidade o fato de ninguém em nosso país usar “mim” como sujeito em outro tipo de verbo: “mim se inscreveu no canal O Magriço Cibernético”, “mim vai passar no ENEM”.
E quais são as regras do funcionamento da norma coloquial bastante cobradas no ENEM e nos grandes vestibulares? Em primeiro lugar, o postulado básico é a preocupação com economia e praticidade, o que estabelece oposição com a norma culta, que é redundante. Para captar esse princípio fundamental, basta lembrar um trecho de “Pelados em Santos”, dos Mamonas Assassinas:

Mina, seus cabelo é da hora

Essa frase representa muito bem o funcionamento da norma coloquial. Se o termo “seus” já indica plural, não há necessidade de colocar os demais (“cabelo” e “é”) nessa mesma condição. Trata-se de um comportamento oposto ao da norma culta, que, redundante, repete o princípio de pluralização: “seus cabelos são”.
Outro exemplo que confirma esse processo é “As Mariposa”, de Adoniran Barbosa:

As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si esquentá
Elas roda, roda, roda, dispois si senta
Em cima do prato da lâmpida pra discansá

O primeiro termo, “as”, já indica plural, portanto, não é preciso colocar em condição semelhante os seguintes. Tem-se então “as mariposa”. Esse princípio também se aplica à concordância verbal. Se “as” apresentava valor de plural, dispensa-se conjugar o verbo nessa forma: “As mariposa fica”. Procedimento semelhante ocorre em “elas roda”: o pronome pessoal do caso reto “elas”, por já ter valor de plural, dispensa “rodar” de ser flexionado nesse status.
Aliás, a praticidade da norma coloquial também pode ser percebida nas pessoas gramaticais. Enquanto o padrão culto apresenta seis (eu rodo, tu rodas, ele roda, nós rodamos, vós rodais, eles rodam), o coloquial apresenta apenas duas, que são o eu e os outros: eu rodo, tu roda, ele roda, nós (ou nóis) roda, eles roda. Detalhe: não há nessa variedade a segunda pessoa do plural (vós), pois essa já deixou de ser usada pelos usuários de nosso idioma em situações cotidianas.
Em resumo, a norma coloquial é pautada pela busca de simplicidade. E pouco importa se é uma forma certa ou errada, bonita ou feia. O que interessa é que funciona. Nesse sentido, mais útil e interessante é, em vez de se agir com preconceito com relação a essa variedade linguística, prestar atenção em como ela funciona, tentar detectar suas regras.
No nosso próximo post serão apresentadas nossas últimas considerações a respeito das variedades linguísticas.



domingo, 18 de junho de 2017

Variedades Linguísticas - Parte 1

Um dos assuntos mais importantes nos vestibulares e no ENEM é variedades linguísticas. Lidar com ele é lidar com um fato que é tão discutido que está até presente em letra de músicas, como "Meninos e Meninas", do Legião Urbana, mais precisamente quando o enunciador diz “Eu canto em português errado, (...) troco as pessoas, troco os pronomes”. Mas existe mesmo um português correto e um português errado?
O primeiro fato que é necessário entender é que a língua, como manifestação social, tem inúmeras possibilidades de realização, todas legítimas. O que vale então é ser eficiente na comunicação, ou seja, ser capaz de se fazer entendido. Assim não há o conceito de português certo ou errado. O que existe é o conceito de adequado ou inadequado. E para isso nem sempre o respeito rígido às normas gramaticais, típico do chamado "português correto", é válido.
Para comprovar o que se está afirmando, basta lembrar que muitos anos atrás o Ministério da Saúde espalhou pelo país outdoors com a seguinte mensagem:
SE VOCÊ NÃO SE CUIDAR,
A AIDS VAI TE PEGAR.
Houve muita crítica em relação a essa publicidade, pois vários setores da sociedade condenavam uma publicidade do governo federal com um desvio terrível da norma culta. Mas em que residia o problema? Estava no tal fenômeno que Renato Russo cantou em "Meninos e Meninas": "troco as pessoas, troco os pronomes". Em outras palavras: como se usa terceira pessoa (se VOCÊ não se cuidar) e logo depois se emprega a segunda (a AIDS vai TE pegar)?
No entanto, caso se obedeça à norma culta, deixando tudo na segunda pessoa, obtém-se: “Se tu não te cuidares, a AIDS pegar-te-á”. Essa mensagem não consegue uma comunicação imediata e, portanto, eficiente com o grande público. Mudando-se então para a terceira pessoa, consegue-se: “Se você não se cuidar, a AIDS pegá-lo-á”.  Outro fracasso comunicativo.
Percebe-se, portanto, que a forma original é mais eficiente, por ser adequada ao que se propunha: comunicação rápida com o público de diversas partes do país e de diferentes níveis sociais. E não importa se para tanto está havendo uma mistura de pessoas gramaticais. Aliás, esse fenômeno é tão comum na linguagem falada no Brasil que tem até nome: cruzamento de pessoas gramaticais. Trata-se, portanto, de um processo legítimo da língua portuguesa, pois é sistemático, sendo praticado por vários falantes em nosso país, até por eruditos.  Basta ver este poema de Manuel Bandeira, "Irene no céu":

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença

O texto acima exemplifica o cruzamento de pessoas gramaticais, que está na fala de São Pedro. A forma "entra", usada pelo santo para se dirigir a Irene, é de segunda pessoa. Na frase seguinte a mesma personagem usa o pronome "você", que é de terceira pessoa, mais uma vez para se dirigir a Irene.  E ainda emprega o verbo "precisa", também em terceira pessoa.
Enfim, apesar do que muitos dizem por aí, não existe o conceito de português errado ou português certo. Na verdade, o conceito que se precisa lembrar não só para o vestibular, mas para toda a vida, é o de adequação de linguagem.


Na próxima postagem falaremos mais sobre as variedades linguísticas.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dicas para a lista de livros da FUVEST 2018

Quem vai prestar FUVEST 2018 tem de ter em mente que o que será cobrado em Literatura restringe-se a uma lista composta por nove livros de expressão em língua portuguesa. Ei-los: Iracema (1865), de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis; O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras (1901), de Eça de Queirós; Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos; Minha Vida de Menina (1942), de Helena Morley; Sagarana (1946), de Guimarães Rosa; Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade e Mayombe (1979), de Pepetela.
A primeira dificuldade quanto a essa lista é o acesso aos livros que a compõem. Quem for tentar adquiri-los, buscando as versões mais baratas, vai gastar R$ 222,10, valor proibitivo para parte considerável do público estudantil. O aconselhável então é procurar em sebos, como o Estante Virtual. É possível também recorrer a empréstimos a bibliotecas, o que pode ajudar em muito a diminuir esse custo. Outra forma é tentar descobrir por meio de redes sociais ex-vestibulandos da FUVEST ou até mesmo professores que possam ceder, mesmo que temporariamente, esses livros. Há ainda a possibilidade de o estudante criar um clube de leitura, em que um grupo de candidatos da FUVEST poderia ratear os custos da aquisição dessa coleção e criar um rodízio de livros entre seus membros.
Vencido o obstáculo que é o acesso às obras, surge mais um problema: em que ordem lê-las. Há dois caminhos possíveis. Para os alunos que estão acostumados com leitura, principalmente de obras literárias, é válido seguir a sucessão das escolas literárias. Dessa forma, a sequência seria Iracema (Romantismo), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Realismo), O Cortiço (Naturalismo), Vidas Secas e Minha Vida de Menina (Segunda Geração Modernista) e Mayombe (literatura contemporânea).
Já para os alunos que não estão acostumados com a leitura de textos literários o conselho a ser dado é outro: privilegiar inicialmente a facilidade de leitura. Assim, a primeira obra a ser encarada é Mayombe, depois Minha Vida de Menina e Vidas Secas. Já então adaptado ao trato literário, o estudante deve partir para obras mais complicadas: Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Cortiço e Iracema.
Os dois roteiros acima não apresentam três obras da lista de livros da FUVEST 2018. O motivo para essa exclusão é o fato de elas exigirem um cuidado especial. Inicialmente, deve-se lembrar que Claro Enigma é uma obra de poesia, gênero que exige um tratamento diferente de leitura. Seus 42 poemas deve ser lidos e relidos no mínimo cinco ou seis vezes para que se consiga começar a dominar o seu conteúdo. Dessa forma, o estudante deve apreendê-lo a conta-gotas, numa média de dois a três poemas por dia. Esse esforço pode ser feito no mesmo período em que estiverem sendo lidas as obras em prosa. Basta o aluno aproveitar pequenos intervalos, como a espera em um ponto de ônibus ou estação de metrô – trabalho diferente dos romances, que deverão ocupar um esforço maior de tempo, como uma ou duas horas do seu dia de estudo.
Quanto a Sagarana e A Cidade e as Serras o conselho é de outra natureza. É recomendável o vestibulando deixá-los para as férias, pois essas duas obras exigirão um esforço gigantesco, seja para se adaptar à linguagem extremamente inventiva de Guimarães Rosa, seja para vencer a lerdeza da narrativa de Eça de Queirós.
 Por fim, um último conselho quanto à linguagem dessas obras literárias. Principalmente em Iracema e Sagarana, o que não exclui os outros livros, o estudante não deve perder tempo em procurar no dicionário o significado de cada palavra desconhecida. O vestibulando deve-se preocupar em captar o sentido geral da frase, entender o seu contexto. Só assim seu trabalho será mais produtivo.

Seguindo todas essas orientações, a lista de livros da FUVEST 2018 não será um grande obstáculo no caminho para a aprovação. Ao contrário, será uma importante ferramenta para o sucesso na entrada no ensino superior na mais importante instituição do país.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

ENEM 2016: pequenas orientações


No próximo final de semana ocorre mais uma edição do ENEM, prova que, apesar dos tropeços dos últimos tempos, conseguiu ganhar importância no universo dos vestibulandos.  Infelizmente, de um valioso termômetro do nível de ensino do País, transformou-se em um gigantesco vestibular, além de ferramenta de marketing de inúmeras utilidades. Entretanto, é mais útil discutir o que o examinando precisa ter em mente neste domingo na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
O ENEM avalia competências e habilidades (o que não significa que não tenha vez por outra um lado conteudista). Assim, o que o candidato precisa demonstrar é sua capacidade de leitura e interpretação de diferentes tipos de texto, a matéria-prima da prova. Dessa forma, é importante reconhecer e compreender diversas modalidades textuais e captar como elas funcionam socialmente.  Portanto, deve-se entender, por exemplo, que um cartaz apresenta concisão e ligação entre imagem e código verbal em nome da comunicação imediata, ou que um editorial apresenta elementos argumentativos, que uma propaganda tem preocupação em fixar a mensagem na mente no leitor, que uma charge sintetiza em imagem algum tema de clamor social.
Além disso, o candidato deve saber relacionar diversas espécies de texto, verbais ou imagéticos, buscando não apenas semelhanças, mas também diferenças. Ou então reconhecer neles quais são os objetivos do seu autor e a que público se dirige. Num romance de José de Alencar, por exemplo, a descrição idealizada pode servir para revelar que o escritor ou queria sofisticar o seu leitor, ou tinha em mente que quem degustava sua obra era preocupado com ostentação de luxo. Por fim, deve-se também detectar que estratégias um texto possui para influenciar o seu receptor. Basta lembrar que é comum propagandas de cerveja sempre apresentarem gente feliz degustando o produto, dando a entender que se trataria de um vital elixir da bem-aventurança.
No fundo, o que o estudante vai ter de captar são os mecanismos de funcionamento de um texto, perceber que palavras servem para conectar ou retomar ideias, quais termos têm o dom de resumir ou simbolizar pensamentos ou conjunto de valores. Assim, é de vital importância saber detectar a função da linguagem predominante - quando em Memórias Póstumas de Brás Cubas o narrador confessa no primeiro capítulo que por um bom tempo hesitou se começava sua biografia pelo nascimento ou pela morte, ele fez com que a narrativa discorresse sobre ela mesma, o que configura a função metalinguística. Ou então notar como a linguagem pode ser usada para fazer com que o leitor preste atenção à sua construção, configurando a função poética, muito bem vista, por exemplo, no largo emprego de proparoxítonas em "Balada do Mangue", de Vinicius de Moraes, servindo para representar a situação anormal e canhestra de a feminilidade ser usada para prostituição. Além disso, o aluno pode ser instigado a reconhecer a capacidade que os textos têm de preservar nossa identidade e nosso patrimônio cultural. É o que se vê, por exemplo, no poema "Não Sei Dançar", de Manuel Bandeira, ou no romance Amar, Verbo Intransitivo, de Mário Andrade, em que se apresenta o corso: em ambos é descriTo como se festejava o Carnaval em tempos passados.

Quadro de Portinari retratando a zona de prostituição do Mangue no Rio de Janeiro.
Ainda nesse escopo, quem vai prestar ENEM precisa levar em consideração que a língua é um instrumento social e, portanto, suscetível a variações ligadas ao contexto em que é utilizada. Logo, não existe um padrão único, mas vários, que são os níveis de linguagem, todos legítimos, cabendo apenas observar em que situações são adequados. Deve-se então aceitar que a publicidade, entre tantos outros gêneros, utiliza linguagem coloquial para garantir maior alcance à sua mensagem. O que não significa que o padrão culto perdeu sua utilidade: há momentos em que ele é vital, como na documentação científica ou na redação de regulamentos.
Com relação ao corpo, não se deve esquecer que ele é capaz de carregar e transmitir significados, promovendo a criação de identidade, a integração social e a satisfação de necessidades cotidianas. Quando se dança, por exemplo, pode haver uma preocupação em seduzir, divertir, assim como quando se pratica esporte pode estar-se buscando conhecer pessoas ou mesmo competir e garantir a primazia dentro de um grupo social. Ou ainda garantir melhor qualidade de vida. Nesse aspecto, há sempre uma questão que apresenta um texto que versa sobre a necessidade de mudança de hábitos corporais em nome da saúde.
O ENEM cobra também a análise da arte em suas múltiplas manifestações, todas  legítimas, não importando se é um quadro de Cézanne, um concerto de Bach, um grafite nos muros de São Paulo ou o funk erotizado e marginal dos morros do Rio de Janeiro ou de ostentação da periferia de São Paulo. Seguindo essa linha, é vital entender que o conceito de beleza, essencial para a manifestação artística, não é universal, pois é um fenômeno cultural e, portanto, relativo: tanto é  bela uma top model como Gisele Bündchen quanto uma miss plus size ou mesmo uma mulher de pescoço de girafa da Tailândia.


Dentro do campo artístico, atenção especial deve ser dada à literatura. É importante perceber que esse tipo de produção está sempre inserido em seu momento e por isso revela características do seu contexto histórico, social e político. Assim, deve-se lembrar, por exemplo, que o Romantismo, surgido 14 anos após a independência do Brasil, acaba naturalmente expressando ideais nacionalistas. Ou que o Primeiro Tempo Modernista, surgido numa época em que a industrialização de São Paulo já se estava mostrando marcante, acabaria tendo tendências futuristas. Mas é também importante notar dentro dos textos literários quais concepções de sua função ou do processo de construção eles apresentam: um romântico acreditaria que sua arte é essencialmente emoção e, se a obra conseguiu tocar o coração do leitor, já cumpriu sua missão estética, sem que haja preocupação com a forma, o que é o oposto da visão parnasiana, que põe em primeiro plano o artesanato da palavra, ou do Realismo, que privilegia a crítica social. Além disso, é necessário lembrar que certos temas não se prendem a uma escola literária: a valorização da cultura popular, por exemplo, pode ser vista no Romantismo e no Modernismo, assim como o endeusamento da mulher está presente no Trovadorismo, no Classicismo, no Romantismo e no Modernismo de Vinicius de Moraes.
Ademais, o candidato precisa estar antenado às novas tecnologias, sabendo identificá-las, além de mostrar-se capaz de entender seu funcionamento e o impacto social que elas provocam na comunicação e na difusão de conhecimento. De fato, a internet tem servido para que ideias circulem de maneira espantosa, não apenas nas redes sociais, em que pessoas trocam informações, opiniões e conhecimento, mas também em comunicadores instantâneos (as chamadas mídias síncronas) ou e-mail e fóruns (as chamadas mídias assíncronas). Basta lembrar como as manifestações de rua de junho de 2013 ou mesmo as últimas eleições foram alimentadas pelo Twitter e Facebook. Ou então como o contato com arte e entretenimento ganhou novas dimensões, pois a qualquer hora é possível ver um programa de 2014 ou de 1969 pelo Youtube ou Netflix. Livros podem ser lidos em pdf, músicas ouvidas em mp3, o que faz a produção intelectual alcançar um nível antes inimaginável, ao mesmo tempo em que questões como direitos autorais passam a ser repensadas.
Importante destacar: muita atenção deve ser dada à dinâmica de uma questão do ENEM, muito diferente da de outros vestibulares. Esse grande exame nacional apresentará sempre um texto-estímulo, um enunciado que inicialmente o contextualiza ou o resume e – o mais importante – uma última oração que apresenta um comando que deve ser atendido. Vejamos um exemplo:

(Disponível em www.ccsp.com.br
Acesso em: 26 jul.2010 – adaptado.)

O anúncio publicitário está internamente ligado ao ideário de consumo quando sua função é vender um produto. No texto apresentado, utilizam-se elementos linguísticos e extralinguísticos para divulgar a atração “Noites do Terror”, de um parque de diversões. O entendimento da propaganda requer do leitor
a)      a identificação com o público-alvo a que se destina o anúncio.
b)      a avaliação da imagem como uma sátira às atrações de terror.
c)      a atenção para a imagem da parte do corpo humano selecionada aleatoriamente.
d)      o reconhecimento do intertexto entre a publicidade e um dito popular.
e)      a percepção do sentido da expressão “noites do terror”, equivalente à expressão “noites de terror”.

Note que essa questão exige em primeiro lugar que se entenda que a imagem faz parte de uma propaganda. Além disso, deve-se perceber o que está sendo retratado: um pé com uma etiqueta colada ao dedo, o que remete ao processo de identificação de cadáveres em um necrotério. Dessa forma, o estudante com competência linguística capta uma referência a algo macabro – coerente com o produto divulgado. Além disso, o examinando tem que mostrar inteligência ao notar que a grande jogada do anúncio publicitário é tornar sua mensagem chamativa e para isso é bastante comum o emprego de jogos de linguagem, como o que aconteceu na frase “Quem é morto sempre aparece”, que surpreende ao inverter o dito popular “Quem é vivo sempre aparece”. Assim, depois de feita essa análise, o candidato já tem em mente qual é a resposta antes mesmo de saber as alternativas apresentadas. Seu trabalho será entender a proposta, apresentada na última oração do enunciado, e a partir de então meramente localizar a resposta correta, sem se preocupar com a eliminação das erradas. Quem não entende essa dinâmica acaba muitas vezes caindo em um problema muito comum: achar que mais de uma alternativa está certa. Na verdade, quem incorre nesse erro, ou não conhece a matéria cobrada, ou não entende o texto-estímulo, ou (aqui está a falha comum e mais simples de ser evitada) não leu atentamente o comando apresentado na última oração do enunciado.  
Por fim, há que se tomar cuidado quanto à redação, que tradicionalmente lida com problemas sociais. O examinando deverá primeiramente entender qual a proposta apresentada para então buscar no conjunto de textos-estímulo ideias que embasarão o seu ponto de vista dissertativo, sempre tendo em mente uma intervenção que solucione o problema debatido e que respeite os direitos humanos.
Enfim, a proposta do ENEM, apesar dos tropeços que o arranharam, é muito bem intencionada: avaliar o aluno dotado de competência linguística, aquela que fará, pois, um profissional e um cidadão eficiente. Resta então aO Magriço Cibernético desejar que seus leitores tenham um excelente desempenho neste final de semana. Boa prova a todos!



Resumos, análises, comparações 
e questões de vestibular, todas gabaritadas.
Para comprar o seu, 

domingo, 15 de maio de 2016

Arte imita a vida, vida imita a arte: hoje, qual a utilidade disso?


     Uma dos conceitos mais antigos associados à arte é o de que ela é mimesis, ou seja, cópia da realidade. Daí vem a consagrada ideia de que a arte imita a vida. Seja lá como se dê esse processo. No entanto, algumas obras se tornam tão famosas que acabam abrindo caminho inverso, em que a vida imita a arte. Basta lembrar que em Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe, o protagonista põe fim à própria existência, o que inspirou a maior onda de suicídio de que se tem notícia. No entanto, nos últimos tempos, esses dois conceitos estéticos parecem que não se têm mostrado úteis.
     Duas obras cinematográficas despejaram no imaginário do grande público elementos que, mesmo produzidos pela fantasia, eram baseados na realidade. A primeira delas é Star Wars. Vimos nela como Palpatine ascende aproveitando-se de que o governo do chanceler Valorum estava minado por casos de corrupção (Episódio I). Ganha mais poder ao criar um inimigo à estabilidade da nação (Episódio II), por fim tornando-se imperador, aclamado pelo Senado da República (Episódio III). Valiosa é a declaração da senadora Amidala: "Então é assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso". No fim, esse congresso será dissolvido no Episódio IV: os manipulados, não mais úteis, são descartados em um contexto em que cidadania não tem mais valor. 



     Arte imita a vida. Inúmeros são os exemplos da História – desde a Roma antiga até a Segunda Guerra Mundial – em que alguém subiu ao poder com a mesma estratégia e com o mesmo discurso: em nome de uma sociedade melhor. Mas não é preciso buscar tão longe um caso que comprove esse fato. Sentimos isso na pele aqui no Brasil. 
     Vida imita a arte. Em nome de uma sociedade melhor, abriram-se as portas do inferno em 2014 e produziu-se um terrorismo eleitoral por todos os lados. Não se discutiam programas de governo, mas atirava-se coquetel molotov por toda parte: candidato A vai acabar com bolsa família, candidato B vai dar o golpe comunista, candidato C vai ser governado por um banco... O resultado das ações desses inocentes (?) úteis (?) que se espalharam pelas redes sociais: dividir o país entre petralhas e coxinhas, ou, na versão mais atualizada, entre mortadelas e coxinhas. Política confundida com torcida de futebol. Qualquer um que tivesse ganhado, não conseguiria unificar o país.



     No meio dessa desordem de uma democracia não amadurecida, forças insidiosas dos dois lados agiram. Em nome de uma sociedade melhor. E com a garantia da lei. Prova disso é que o processo de impeachment foi inquestionavelmente legal. Mas o circo que foi a sua votação provou que o fato era só pretexto.
     Arte imita a vida. Outra obra conseguiu despejar elementos no imaginário das massas: a saga Harry Potter. Uma imprensa estrábica havia tornado inimigos públicos justamente quem lutava pelo bem: Harry Potter e Professor Dumbledore. O primeiro foi obrigado a se ver em ostracismo. O segundo, a ser afastado graças a um regulamento que ele próprio criara. Lei mais uma vez servia de pretexto. Nada mais útil para a instauração de planos insidiosos. Em nome de uma sociedade melhor, Professora Dolores Umbridge impõe uma reforma educacional que não prepara para a vida – adestra. Dementadores têm liberdade para agir. Inúmeros são os exemplos históricos que comprovam que a ascensão do totalitarismo, de direita ou de esquerda, dá-se dessa forma. 


     Vida imita a arte. Vivemos tempos sombrios – frase do ministro da magia em Harry Potter. Em nome de uma sociedade melhor, a assembleia de Alagoas proíbe que professores expressem opiniões em sala de aula, esquecendo que a formação educacional se dá por meio do contato com pluralidade de ideias. Em nome de uma sociedade melhor, elogia-se a tortura, assim como a cusparada. Em nome de uma sociedade melhor, um criacionista assume um ministério responsável pela ciência. Em nome de uma sociedade melhor, uma nuvem conservadora paira sobre um ministério atuante em muitas conquistas sociais, o da educação. Em nome de uma sociedade melhor, aceita-se, relativiza-se, ou partidariza-se a corrupção. 

     As perspectivas não são boas. A arte nos mostra como é a vida e continuamos caindo em erro. Mas como explicar a cegueira ou a visão seletiva que nos toma? Como sair de uma conjuntura que teoricamente é legal e seguiu os trâmites democráticos, pois seus atores foram legitimamente eleitos por nós mesmos? Como aceitar que as palavras de Gregório de Matos, do século XVI, ainda valham hoje: “Neste mundo é mais rico o que mais rapa: “Quem mais limpo se faz, tem mais carepa [caspa] / Com sua língua, ao nobre o vil decepa: / (,,,) Quem menos falar pode, mais increpa: / (...) A flor baixa se inculca por tulipa”. Vida imita a arte. Arte imita a vida. Como dizia o Velho do Restelo, comentando a situação humana: "Mísera sorte! Estranha condição!"

domingo, 8 de maio de 2016

Claro Enigma: que pode o vestibulando senão amar este livro?


A FUVEST 2017 incluiu Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, em sua lista de livros de literatura. É uma escolha que de certa forma surpreende, pois a obra apresenta elementos que não costumam fazer parte do repertório cultural ou mesmo da experiência de vida do público recém-egresso do ensino médio. Tal dissociação entre livro e leitor pode gerar dificuldades na compreensão dos textos que compõem o livro.
Estamos acostumados a ver nos vestibulares textos de Drummond com a iconoclastia um tanto narcisista e juvenil de Alguma Poesia (1930), em que se destaca o já mitológico “No Meio do Caminho”. É inegável a importância da coragem do poeta de fazer parte de um grupo que buscou renovar as nossas letras. Ainda assim, a feição poética que ultimamente vinha sendo bastante destacada nos vestibulares era a de Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945), em que o autor inclinara-se para a esquerda.
De fato, é bastante compreensível a guinada que a literatura mundial dera em direção ao socialismo. A humanidade estava sentindo-se massacrada pela crise de 1929, que gerou consequências pela década seguinte. Era também preocupante o Entre Guerras, que indicava um conflito mal resolvido e que por fim acabaria por culminar na Segunda Guerra Mundial. Além disso, mostrara-se agravante a ascensão de regimes totalitaristas como o nazismo e o fascismo. Tornara-se plausível, portanto, em um quadro tão conturbado, a escolha feita por alguns intelectuais, e neles se inclui Drummond, pelas doutrinas políticas de linha marxista.
No entanto, Claro Enigma é de época posterior ao contexto difícil dos anos de 1940. Publicado em 1951, encontrava um quadro de redemocratização e reconstrução. A guerra já havia acabado. Os tão temidos totalitarismos tinham sido derrotados. Ainda assim, o que se percebe na obra é um clima de desencanto, por sinal explicável. O mundo via-se sufocado pelo clima da Guerra Fria e a ameaça de uma extinção apocalíptica nuclear tornava-se cada vez mais iminente. A derrota sofrida pelo fascismo e nazismo não trouxera justiça social – o capitalismo continuava opressivo. E, talvez o mais frustrante para Drummond, seu namoro com o socialismo acabara. O poeta decepcionara-se ao ver que essa doutrina estava tomando um caminho errado ao se mostrar como mais uma forma de totalitarismo. O escritor, que ainda se declarava contra desigualdades, agora via como ingênua a ideia de que a mudança de um sistema econômico seria a chave para transformar o mundo em um paraíso que ignoraria a complexidade do ser humano.
Torna-se claro – não para todos – que Drummond havia amadurecido. Cansara-se do lado público, político, mas não desprezara as preocupações sociais. Passara a elevar-se para questões existenciais, o que alguns na época – os que padeciam da miopia da patrulha da obsessão ideológica – interpretaram como alienação. Seu espírito combativo fora substituído por uma postura resignada, de aceitação das limitações inerentes à condição humana. É o que se vê no vídeo acima, em que Marília Pêra declama “Amar”, um dos poemas que integram Claro Enigma.
Note-se o uso, já a partir do título, do infinitivo. Essa forma retira do verbo marcas temporais, do “tempo presente”, “da vida presente”, “dos homens presentes”, como pregava o mesmo poeta em sua fase combativa em “Mãos Dadas”, de Sentimento do Mundo. Agora, a discussão está posta para além das limitações de época. Assume-se, portanto, o enfoque universal, o que é reforçado por expressões vagas como “criatura” e “criaturas”: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas amar?”. Ou então “ser amoroso”: “Que pode, pergunto, o ser amoroso, / sozinho, em rotação universal, senão / rodar também, e amar?”.
É valioso observar nesse patamar como o emprego no sétimo verso da primeira pessoa do singular (“Que pode, pergunto, o ser amoroso”) não provoca comprometimento da referida universalidade. Trata-se, na verdade, de uma das características mais marcantes do eu poemático drummondiano: sua capacidade de conter o eu de todos nós.
Nesse ponto, ocorre o ponto preocupante anunciado no primeiro parágrafo desta postagem. O eu poético drummondiano serve de porta-voz de todos nós. Mas quem seria esse “todos nós”? “Amar” é um poema tocante, conforme atesta a cara confissão de Marília Pêra: seus olhos se turvam a ponto de atrapalhar a leitura. O conhecimento amoroso que causou as lágrimas da atriz não costuma pertencer ao mundo do vestibulando adolescente. Na verdade, não está universo confessional ao qual está afeiçoado. Faz parte do campo reflexivo da senectude, ao qual Drummond e Pêra aproximam-se.
  

Nesse sentido, a interrogação “Que pode (...)?” na verdade é retórica, funcionando como uma afirmação categórica, que indica um eu resignado que compreende as características inevitáveis do amor. Essa construção frasal equivaleria a “Não resta nada a não ser...”: “Não resta nada a uma criatura a não ser amar”, “Não resta nada ao ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão amar”.
  Adota-se, portanto, uma visão que se avizinha da negatividade, ou da falta de colorido da existência. Torna-se coerente, portanto, o aparecimento de expressões em “Amar” como “deserto”, “inóspito”, “áspero”, “vaso sem flor”, “peito inerte”, “ave de rapina”, “coisas pérfidas ou nulas”, “ingratidão”, “concha vazia”, “procura medrosa”, “amar a (...) falta (...) de amor”, “secura”, entre outras.
Esse pessimismo, ao contrário do que o senso comum interpretaria, não equivale a desistência da vida. Basta notar a declaração “este o nosso destino” para se recusar a hipótese de que o poeta se tenha tornado inerte. Na verdade, percebe-se aqui uma postura assumida em Claro Enigma: a aceitação do caráter negativo irrevogável e inerente ao ser humano. Atitude de poeta amadurecido que não deve ser confundida com passividade, indolência ou alienação. É a compreensão de que, por mais sombria que a perspectiva existencial possa parecer, ela nos pertence e é nosso papel continuar na luta.

domingo, 1 de maio de 2016

"Ain't Got No", de Nina Simone - Exemplo de construção textual

A ligação que os elementos de um texto estabelecem entre si garante o seu significado. Quando esse processo é bem elaborado, vão-se construindo blocos de sentido que mantêm coesão e coerência textuais, como se vê, por exemplo, na composição “Ain't Got No/I Got Life”, de Nina Simone (a obra dessa artista já foi discutida nas postagens de 22 de agosto de 2012 e de 18 de novembro do mesmo ano). Essa peça é capaz de mostrar de que maneira forma e conteúdo podem produzir um casamento sólido e harmonioso. 

 

Em primeiro lugar, deve-se observar como o piano e principalmente a bateria marcam a divisão temática da obra, indicando os blocos de assunto que se materializam em estrofes. Num primeiro momento, enquanto esses dois instrumentos vão tocando suas melodias de repetitivamente, a enunciadora enumera as coisas materiais que não possui:

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no man

Então a bateria faz um volteio, abrindo caminho não só para a mesma melodia, mas também para outra estrofe, que introduz uma nova enumeração, agora ligada a elementos que denotam relacionamentos sociais que a enunciadora diz não possuir:

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God 

Nesse ponto, em que se toca no sagrado (God), a composição prepara-se para seu clímax, já que o eu poemático atingiu um ponto crítico de profundo esvaziamento. Não é à toa que se sente um crescendo na instrumentação por meio do qual um caráter reflexivo entra em cena. As interrogações retóricas permitem entender que o processo de negação funciona como escada para se vislumbrar o que realmente importa:

Then what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got nobody can take away

Atingido o clímax, ocorre a primeira pausa da música. Após ela, uma nova melodia surge, indicando que a enunciadora realizou um sábio processo de desapego, encontrando o que realmente é importante para uma existência plena e feliz:

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex 

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, got my blood 

Apesar de a voz que se manifesta aqui cantar esse trecho em três blocos, talvez por questão de fôlego, a instrumentação não se altera, indicando que se trata da mesma realidade e, portanto, do mesmo assunto: o que no fundo nós temos é muito pouco – apenas o corpo. É então que surge outra pausa, importantíssima, para abrir caminho para mais uma estrofe e, portanto, para mais uma matéria:

I've got life
I've got my freedom
I've got the life
I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

Esse último momento, com voz e instrumentos musicais atingindo o seu máximo, funciona como conclusão, apresentando o que realmente vale em nossa existência: a vida em si, sem rodeios e ilusões materialistas. O pouco (para os olhos dos não iluminados) que na verdade é muito (para os olhos dos iluminados).
O exemplo aqui analisado, portanto, mostra-nos como a organização textual é vital para a produção de um discurso eficiente, qualquer que seja a realidade abordada. Esse é um ponto que devemos ter em mente tanto para a leitura quanto para a redação.