domingo, 1 de maio de 2016

"Ain't Got No", de Nina Simone - Exemplo de construção textual

A ligação que os elementos de um texto estabelecem entre si garante o seu significado. Quando esse processo é bem elaborado, vão-se construindo blocos de sentido que mantêm coesão e coerência textuais, como se vê, por exemplo, na composição “Ain't Got No/I Got Life”, de Nina Simone (a obra dessa artista já foi discutida nas postagens de 22 de agosto de 2012 e de 18 de novembro do mesmo ano). Essa peça é capaz de mostrar de que maneira forma e conteúdo podem produzir um casamento sólido e harmonioso. 

 

Em primeiro lugar, deve-se observar como o piano e principalmente a bateria marcam a divisão temática da obra, indicando os blocos de assunto que se materializam em estrofes. Num primeiro momento, enquanto esses dois instrumentos vão tocando suas melodias de repetitivamente, a enunciadora enumera as coisas materiais que não possui:

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no man

Então a bateria faz um volteio, abrindo caminho não só para a mesma melodia, mas também para outra estrofe, que introduz uma nova enumeração, agora ligada a elementos que denotam relacionamentos sociais que a enunciadora diz não possuir:

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God 

Nesse ponto, em que se toca no sagrado (God), a composição prepara-se para seu clímax, já que o eu poemático atingiu um ponto crítico de profundo esvaziamento. Não é à toa que se sente um crescendo na instrumentação por meio do qual um caráter reflexivo entra em cena. As interrogações retóricas permitem entender que o processo de negação funciona como escada para se vislumbrar o que realmente importa:

Then what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got nobody can take away

Atingido o clímax, ocorre a primeira pausa da música. Após ela, uma nova melodia surge, indicando que a enunciadora realizou um sábio processo de desapego, encontrando o que realmente é importante para uma existência plena e feliz:

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex 

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, got my blood 

Apesar de a voz que se manifesta aqui cantar esse trecho em três blocos, talvez por questão de fôlego, a instrumentação não se altera, indicando que se trata da mesma realidade e, portanto, do mesmo assunto: o que no fundo nós temos é muito pouco – apenas o corpo. É então que surge outra pausa, importantíssima, para abrir caminho para mais uma estrofe e, portanto, para mais uma matéria:

I've got life
I've got my freedom
I've got the life
I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

Esse último momento, com voz e instrumentos musicais atingindo o seu máximo, funciona como conclusão, apresentando o que realmente vale em nossa existência: a vida em si, sem rodeios e ilusões materialistas. O pouco (para os olhos dos não iluminados) que na verdade é muito (para os olhos dos iluminados).
O exemplo aqui analisado, portanto, mostra-nos como a organização textual é vital para a produção de um discurso eficiente, qualquer que seja a realidade abordada. Esse é um ponto que devemos ter em mente tanto para a leitura quanto para a redação.




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