domingo, 6 de maio de 2012

Paraísos Artificiais, o filme: onde rola a verdadeira vibe?

Em 1860 o poeta francês Charles Baudelaire, grande nome do Simbolismo, publicou Paraísos Artificiais, ensaio em que defendia a ideia de que, graças ao avanço intelectual, o homem acabou não acreditando mais na existência do paraíso cristão. Carente então da busca por uma experiência superior, sublime, o ser humano acabou substituindo o paraíso religioso por paraísos artificiais atingidos por meio das drogas.
Devemos respeitar a opinião desse escritor porque, além de ter sido uma das maiores mentes do século XIX, falou com conhecimento de causa – ele, como seus colegas literatos, tornaram-se célebres pelo largo emprego de narcóticos. Tanto que os ideais da poesia simbolista confundem-se com os ideais da entrega a essas substâncias: alargamento dos sentidos, busca da transcendência, abertura das portas da percepção, procura do eu-profundo.
Entretanto, estranhamente poucos fãs desse artigo lembram que Baudelaire arrolou aspectos negativos do consumo da droga, muitos deles ligados a consequências desastrosas. Enfim, o poeta avisa que na maioria das vezes a busca pela essência divina só consegue fazer aflorar o lado mais forte da depravação. Como dizia muito bem uma das personagens do filme de Marcos Prado, com o mesmo nome do artigo simbolista, a droga não cria nada, só potencializa o que está dentro do ser humano. E como parece que somos feitos de um barro ruim, biblicamente falando, o que é exponenciado é justamente nossa face sombria.
O filme Paraísos Artificiais (2012) consegue mostrar muito bem essa questão ambivalente. Mostra-se o lado do alargamento dos sentidos que o mundo das drogas traz, com suas festas, popularidade, amizades, dinheiro fácil, e também o desmantelamento social, com prisão, overdose, morte, marginalização, desajuste familiar (causa ou consequência?) e setores que se aproveitam economicamente dessas desgraças – os abutres do tráfico. É o embate entre a entrega ao presente (preocupação da personagem Lara) e o peso do futuro (vivido pelos irmãos Lipe e Nando, a mãe deles e principalmente por Érika).
Mas a arte muitas vezes não apenas imita a vida. Se fosse assim, essa película seria um mero documentário disfarçado em ficção ou vice-versa. A boa arte é superior à vida, pois consegue nos mostrar, ou nos fazer sentir aquilo que se nos tornou anestesiado graças ao cotidiano. Esse é o grande mérito da obra de Marcos Prado: fazer-nos sair incomodados da sala de projeção porque tocamos em uma questão mais profunda do que a dicotomia muito discutida entre repressão e liberalização. Aliás, nenhum dos dois lados tem a solução, porque no fundo a questão é outra: o que estamos procurando?
Eis uma velha questão. Respondendo a uma pergunta de Vinicius de Moraes no poema “Saudade de Manuel Bandeira” (“Que sonhas tanto a sós contigo?”), o homenageado confessa: “Com que sonho? Não sei bem não. / Talvez com me bastar, feliz / — Ah feliz como jamais fui! – / Arrancando do coração — / Arrancando pela raiz — / Este anseio infinito e vão / de possuir o que me possui”. Está aqui a grande angústia das pessoas sensíveis que são os poetas – procuramos uma autossuficiência em felicidade. Não depender de nada para se alcançar essa graça. Eliminar esse anseio desesperado que acaba nos dominando e paradoxalmente anulando nossas existências: felicidade.
Mas tão sensíveis quanto os poetas são os jovens, que estão “desenvolvendo sua psiquê” (expressão usada no filme), daí a necessidade intensa de busca e de experimentação. Depois acabam achando seu rumo ou, na maioria das vezes, perdendo-se no meio do caminho, ou infantilizados, ou tornando-se caretas sustentadores do sistema, que os quer apenas como adultos responsáveis pagadores de contas e impostos. Os jovens, enfim, são as maiores vítimas do mundo das drogas, justamente por que são o para-raios de nossa sociedade.
É por isso que Paraísos Artificiais os coloca como protagonistas, pois eles são a representação exagerada, mais nítida do vazio de nossa existência. Eles conseguem mostrar o que nós, adultos, covardes, jogamos para debaixo do tapete: uma busca pelo que muitas vezes nem sabemos o que é. E nessa procura cega acabamos injetando substâncias no organismo que proporcionam paraísos artificiais. Tais são as drogas ilícitas e lícitas (ambas muito bem mostradas no filme): álcool, cigarro, sexo (este injeta endorfina no corpo). A dependência química se torna crítica porque mostra que está bem ao nosso lado. O mal é humano, demasiadamente humano.
 Nesse ponto, pode-se até entender o porquê de o filme alimentar-se de música, ou seja, parecer ser viciado nela. As batidas fortes da sonoridade eletrônica parecem estabelecer uma sintonia, um pulso, como o do coração bombeando sangue e energia para o corpo. São comandos para que o grupo inteiro se entregue a uma vibe. Isso lembra o que o sociólogo francês Michel Maffesoli relatou em seu A República dos Bons Sentimentos (2008): esses jovens da sociedade do curtir (expressão de sucesso até no Facebook) são nada menos do que uma manifestação de um ideal hedonista ao qual o mundo contemporâneo, decepcionado com o fracasso dos grandes ideais, se entregou. A espécie humana virou isso, como bem mostra o filme: sexo, bebida, música, dança, drogas.
Enfim, Paraísos Artificiais nos passa uma sensação de claustrofobia. A alegria está nos momentos claros do dia, vistos como um bem extraviado. A saída das trevas está nas tentativas de recuperação desse mito extraviado. Nesse ponto a obra se mostra mais bela, pois lida com uma encantadora metáfora cinematográfica, que está na ideia do mergulho. O mundo das drogas é um mergulho perigoso. Assim como a vida. E a saída, se há, não está nos entorpecentes, mas nas relações humanas maduras conquistadas dolorosamente. Quem assistir ao filme entenderá o que se está afirmando.

10 comentários:

  1. Qual seria a analogia do jovem como para-raio da sociedade?

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    1. Os jovens são muito sensíveis, por isso eles captam com facilidade as angústias da sociedade. A maioria dos adultos perdeu essa sensibilidade, pois estão mergulhados em compromissos e obrigações cotidianas. E como vivemos uma época vazia de ideais, ou de busca deles, toda essa problemática é atraída pelos jovens. Inconscientemente, na maioria das vezes. Os que captam isso conscientemente são filósofos, intelectuais e artistas. Mas esses são minoria. Espero ter sido claro.

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    1. Meu anjo, eu não vi esse filme. Mas vou procurar vê-lo.

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  3. Laudemir assisti o filme antes de ler seu post e pude concordar com cada palavra.
    O filme brinca com minha geração, senti um grande desconforto ao me ver em alguns momentos e mais ainda por me sentir como esse para-raio,hoje desativado.
    A constatação das duas vias, a realidade(vida) e a ilusão(drogas) não passa de uma dicotomia,ambas ou essa com suas artificialidades e consequencias tão palpaveis quanto um filho,ou uma prisao,ou uma overdose ou reencontro. Acho interessante qdo o Pajé das drogas,o sujeito maduro,traficante,culto,que chora pela beleza do mundo anestesiado por drogas dentro de um onibus,diz que "as drogas não criam nada só expoe aqui que esta dentro de nós".Interessante porque as consequencias não oriundas de um plano superior de transcendencia e sim conjuntural. E se as drogas fossem legalizadas como a vida é? Não usar a vida para mim é uma caretice.

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    1. As drogas só expõem aquilo que está dentro de nós (corrigindo)

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    2. Eu não sei te dizer o porquê, mas fiquei emocionado ao ler o seu texto, pois ele está em primeira pessoa. Lindo mesmo.

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  4. No décimo livro da República, de Platão, a arte é relacionada à mentira, pois, segundo o filósofo, ela imita a aparência, sendo cópia da cópia, estando, por isso, a três longos passos da verdade. Mas como é impossível que se impeça alguém de nascer poeta, Platão vai sacrificar severamente os direitos do artista às exigências da sociedade, ameaçando de expulsão da cidade aqueles artistas que não empregarem apenas os meios necessários aos bons modos da República. Platão deseja que o Estado use a arte para modelar a alma dos seus cidadãos, por isso o trabalho artístico deve, segundo ele, ser supervisionado e controlado. Do contrário, é melhor que não exista. Tinha que esse Marcos Prado levar um pé no rabo para parar de corromper a juventude.

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