No post de 10 de novembro de 2013 foi usada uma propaganda no novo Focus para se abordar
a intertextualidade, ou seja, o fenômeno em que um texto incorpora outro. E não deixar de ser válido notar que a peça publicitária da Ford buscou inspiração nos filmes de
ficção científica. Tal fato não apenas põe à tona o avanço tecnológico do
produto anunciado. Exibe também uma característica típica da ficção científica,
que não é a de profetizar os avanços da Ciência, como alguns pensam, mas o de expressar
sonhos que orientarão os passos do progresso humano. Assim, quando uma narrativa
mostra, por exemplo, um carro estacionando sozinho, ela acaba divulgando um ideal que o homem
lutará por satisfazer.
Na verdade, a aproximação da propaganda
analisada com narrativas como Blade
Runner, Tron, Eu, Robô coloca em evidência um elemento que torna o
comercial de televisão um dos textos persuasivos mais eficazes, pois lida com
nossos sonhos mais íntimos. É o que ocorre também no anúncio acima, do Peugeot
208. Sua inspiração dessa vez é um clássico
desenho animado dos estúdios Hanna-Barbera, A
Corrida Maluca (Wacky Races, 1968), cuja abertura exibe-se a seguir:
Nota-se já na introdução o esquema
básico de todos os episódios desse desenho animado e que foram aproveitados no comercial
do Peugeot. E essa incorporação permite que se vislumbrem algumas análises
clássicas. A primeira é a de que o automóvel é o brinquedo do homem como
criança crescida. Em outras palavras, o garoto que se divertia vendo Corrida Maluca, hoje, já um consumidor
maduro, poderá ir além da postura passiva de assistir a um episódio dessa
animação: ativamente fará parte dela. E ainda, graças ao seu "possante" (não é exagero a ambiguidade desse termo), conquistará a gata da disputa. Mulher, carro, invencibilidade... Parodiando Camões: que mais deseja o homem de alcançar? Nesse ponto, chega-se a outra análise,
talvez a mais importante para esse post:
a propaganda é um instrumento ferozmente persuasivo porque trabalha com nossos
sonhos. Ela promete atendê-los, desde que você compre o produto anunciado. Só
assim o consumidor se sentirá um ser humano feliz e completo...
Para escapar então desse canto de
sereia, é preciso manter o espírito crítico em alerta na análise de textos
propagandísticos para captar a forma insidiosa por meio da qual a publicidade
mexe com os ingredientes que fazem parte de nossa estrutura mental profunda e
inconsciente, misturando-os aos produtos que ela quer nos fazer consumir.
Muitas
vezes já se falou nO Magriço Cibernético
que todo texto é composto pela articulação de ideias, que se dá tanto interna
quanto externamente. Ignorar essas condições é abrir caminho para erros de
interpretação. Trata-se de uma questão simples, mas teimosamente ignorada, o
que acaba, de maneira paradoxal, tornando-a complexa. Um exemplo dessa
problemática é a publicidade do vereador soteropolitano Marcell Moraes (PV),
vista na imagem acima.
Na peça
em questão, que tem a intenção de fazer prestação de contas ao eleitor,
menciona-se a aprovação de um projeto, de autoria do edil, contra maus tratos
aos animais. Há ainda a mensagem de que eles são como nós, seres humanos, e,
subentende-se, por isso merecem respeito e bem-estar. Tudo dentro do
politicamente correto. Entretanto, a celeuma foi levantada pelo fato de se
utilizar uma comparação: um homem negro e um cachorro escuro, ambos fazendo os
mesmos gestos – língua de fora e olhar animado e fixo para frente. Comparação
simpática e de boas intenções: o cão é elevado ao nível do homem, a afetividade
da cena (amamos bichos de estimação) dá valor positivo à campanha, e acaba
também se transferindo para a figura humana da foto. Esses eram os elementos
que deveriam entrar em ação na articulação do texto e produção de sentido.
Entretanto,
o outdoor colocou em cena um elemento
marcado socialmente por questões polêmicas: o negro. Houve quem entendesse que
a propaganda era discriminatória, pois rebaixava o afrodescendente a um cachorro,
ainda mais escuro. Começaram então a fazer uma ligação de ideias que não estava
autorizada no texto. Em outras palavras: praticou-se erro de leitura. Bastaria
manter em mente que se trata de uma peça de valores positivos e que, portanto,
não faria sentido mostrar ideais socialmente corretos por meio de um preconceito.
Além disso, a frase da campanha é “Animais são como você”, o que não indica
necessariamente rebaixamento, como poderia indicar a oração “Você é como animal”.
Poderia.
Todavia,
para atender à sanha daqueles que buscam elementos externos para a interpretação
de textos, e desabonar as críticas levantadas contra o vereador, bastaria
apresentar mais outros dois outdoors
da mesma campanha:
A mesma
mensagem, personagens diferentes... e nenhuma grita. Por que essa discriminação?
Qual a diferença entre essas duas propagandas e a primeira, tão difamada? A única
modificação é a presença de um homem negro. Então, para se evitar polêmica,
bastaria não utilizar indivíduos desse grupo étnico? E se isso ocorresse, não se
tornaria possível então a crítica de que essa grande porção de nossa população
não estaria sendo representada?
O que
parece estar acontecendo é que a nossa sociedade acordou contra injustiças
sociais, o que a faz dar voz e ouvidos às críticas contra o preconceito de
qualquer espécie. Esse é um fato bastante louvável e necessário, porque, apesar
do muito que avançamos, parece que ainda é pouco, pois o racismo (entre outras
formas de discriminação) ainda está presente no nosso meio (basta, a título de “degustação”, dar uma conferida na valiosa página Combate Racismo Ambiental: http://racismoambiental.net.br/tag/crime/), respingando por toda
parte, conforme ficamos sabendo pelos noticiários: juízes e jogadores de
futebol, estudantes universitários, porteiros, professores. Enfim, lutar contra
essas aberrações morais é até obrigação de quem se considera cidadão. Entretanto,
há que se ter critério para não se praticar extrapolações interpretativas.
Talvez
esses erros de leitura sejam fruto do fator “gato escaldado”. Cansados que
estamos de injustiças, despertamos uma reação virulenta contra aquilo que de
longe pode parecer um ataque ao respeito ao próximo. E paradoxalmente corremos
o risco de nos tornar tão monstruosos quanto aquilo contra o qual lutamos. Ou
então tenha virado moda fazer a torto e direito um discurso crítico negativo
para se passar uma imagem de maturidade e consciência político-social. Isso
seria mais triste.
Final de ano é uma época de simbologias
interessantes, infelizmente algumas perdidas, outras na verdade não percebidas,
o que no fundo pode dar no mesmo resultado negativo. Não as notamos por causa
do nosso cotidiano, que nos faz viver atualmente uma mistura de esperança,
exaustão e estresse. São as férias avizinhando-se, mas também o cansaço
resultante dos doze meses (trabalhos) de Hércules que enfrentamos. Sem contar a
preocupação com as comemorações e, infelizmente, o frenesi consumista a que nos
entregamos, transformando shopping centers
em verdadeiros formigueiros. Nesse contexto, é bastante válida uma pausa
para captar o que estamos deixando escapar desse momento que ainda carrega algo
valioso e nada materialista.
O vídeo acima permite entender ao que
estamos ficando cegos. Trata-se do “Jauchzet, frohlocket”, abertura do Oratório de Natal de Bach, que estreou
em 25 de dezembro de 1734. Se lembrarmos que essa obra foi apresentada aos
poucos durante seis dias (25, 26, 27 de dezembro de 1734 e 01, 02 e 06 de
janeiro de 1735), notaremos que a noção de tempo e de experiência de vida eram
outras. Assumir um compromisso de diariamente não só executar, mas também
assistir a uma composição sacra é hoje um esforço inimaginável. Mas é esse impensável
que precisamos vislumbrar.
O interessante nessa composição barroca
é que sua melodia nasceu profana. Bach então, quando recebeu o pedido para
produzir um oratório, praticou o que alguns chamam musicalmente de paródia:
aproveitou-se do elemento já existente e o aplicou em novo tema. Enfim, o
secular virou sacro. Atualmente, as comemorações que essa obra representa
voltaram a se tornar seculares. Essa comutação, portanto, facilita a entender o
significado profundo da data que estamos comemorando, sem que caiamos em
sectarismos.
Inicialmente, é bastante válido prestar
atenção na letra:
Jauchzet, frohlocket! auf, preiset die Tage,
Rühmet, was heute der Höchste getan!
Lasset das Zagen, verbannet die Klage,
Stimmet voll Jauchzen und Fröhlichkeit an!
Dienet dem Höchsten mit herrlichen Chören,
Laßt uns den Namen des Herrschers verehren!
A tradução poderia ser algo próximo disto:
Grite
de alegria, alegre-se! Eleve-se, louve este dia,
Glória,
pois que hoje o mais elevado foi feito!
Abandone
a hesitação, afaste a lamentação,
Comece
a cantar com muito júbilo e alegria!
Sirva
o Altíssimo com coros magníficos,
Adoremos
o nome do nosso governante!
Trata-se de uma mensagem para que elementos
negativos como medo, lamentação, hesitação sejam banidos e substituídos pela
alegria (muito mais poderosa e importante) diante do fato de que dias novos
estão surgindo. É também uma mensagem para a busca de elevação, de servir
àquilo que está nas alturas. Entretanto, ela ainda é válida hoje?
Natividade Mística (c. 1500-1501), de Botticelli
Uma obra de 279 anos, de raízes profanas, feita por alguém tão pragmático, teria algo sublime a comunicar em dias tão consumistas? Parece que a
lição que ela nos passa é a de que ainda somos humanos, não importando se o
lastro de nossas manifestações é sacro ou profano. E o final de ano, apesar de
muita coisa parecer provar o contrário, é o momento certo para que esse desejo
de elevação renasça. E, como um mito (e de fato o é!), precisa sempre se
renovar, para que, revivida, a mensagem não se perca.
Mais um ano se acaba, outro está
chegando. E estamos tomando fôlego e prontos para mais desafio. É da essência
humana. E é essa energia que precisa ser celebrada, por isso a necessidade de
nos confraternizarmos, de experimentarmos que o mais valioso, o mais elevado é
justamente estar vivo e compartilhar experiências. Deve-se glorificar o simples
e ao mesmo tempo valioso feito de estarmos aqui, e de não estarmos sozinhos. É
desse pequeno e ao mesmo tempo grandioso ingrediente de que é feita a gloriosa
aventura de nossa existência.
No próximo domingo
será realizada a prova da FUVEST, um dos vestibulares mais importantes do país.
Aquele que vai prestá-la precisa entender que, pelo menos em Português, nos
últimos anos essa avaliação tem-se mostrado sem sustos, artimanhas, mistérios ou
segredos. Sua intenção não é descobrir entre os estudantes potenciais filólogos,
linguistas, gramáticos ou literatos, mas apenas selecionar quem tem competência
linguística adequada para as diversas carreiras do ensino superior, não importa
se de humanas, biológicas ou exatas.
Dessa forma, por
exemplo, as questões de literatura não vão se concentrar em literatices sobre quem
escreveu tal livro ou qual o nome de tal período estético. O que se cobrará é o
reconhecimento dos mecanismos de funcionamento do texto literário. Assim,
pode-se indagar o que a repetição de um evento (consoante, rima, vocábulo,
ação, o que quer que seja) tem a ver com a dinâmica da obra em análise.
Nesse ponto, há algo
que ressaltar. Já que todo texto literário é um produto social, pode-se cobrar
do vestibulando o reconhecimento da relação que um romance ou um poema tem com
o seu momento histórico. Assim, o banditismo de Jão Fera em Til é um
típico sinal de que a região em que ele se encontra, o interior de São Paulo,
ainda não havia se civilizado por completo, abrindo caminho para a utilização
desses recursos violentos para a manutenção de uma certa ordem. Ou então,
as plantações de Luís Galvão (cana e café) indicam processos econômicos a que o
Brasil se havia dedicado. Até mesmo a posição de sua fazenda revela a maneira
como essa região se povoou, concentrada inicialmente em atender a zona aurífera
de Minas Gerais. Entretanto, não só de História se viverá. É possível fazer uma
ponte com Geografia para entender que o tipo de solo que Alencar chama de rico
e ferruginoso é nada mais do que a célebre terra roxa.
Além disso, o
candidato deve estar preparado para questões que exigirão a comparação entre as
nove obras da lista de livros. Assim, deverá captar, por exemplo, que a
presença do comerciante italiano em Til e em O Cortiço revela
flagrantes da composição de nossa população. Ou então que a escravidão
justifica o comportamento cínico de Brás Cubas ou a desvalorização do trabalho
rural como se vê em Jão Fera, de Til, e Jerônimo, de O Cortiço.
Sem falar que deixa suas feridas em Memórias de um Sargento de Milícias
e Sentimento do Mundo. Enfim, serão questões que funcionarão não apenas
como verificação de leitura, mas principalmente de compreensão. Nesse ponto, é
bastante válido reler os posts dO Magriço Cibernético dedicados a
cada um desses livros (21 de janeiro, 24 de março, 29 de abril, 03 de junho, 17 de junho, 24 de junho, 12 de agosto, 16 de agosto, 02 de setembro, 09 de setembro, 26 de setembro, 03 de outubro, 07 de outubro, 17 de outubro e 28 de outubro).
É também importante
lembrar que a FUVEST cobra a compreensão dos mecanismos de funcionamento
de uma obra literária e não simplesmente a reprodução de clichês analíticos.
Assim, por exemplo, em O Cortiço,
obra que todo mundo facilmente associa aos ditames do Naturalismo, pode-se
cobrar características comuns ao Romantismo, como a exuberância da natureza
brasileira ou a sensualidade feminina associada ao ambiente em que a mulher
vive. Ou em Capitães da Areia, há que
se lembrar que, apesar de se tratar de um romance do regionalismo modernista, a
relação entre Pedro Bala e Dora é uma atualização do Romantismo.
Quanto às questões de
interpretação de textos que não fazem parte da lista de obras da FUVEST, o que
inclui os literários e os não-literários, o esquema será basicamente o mesmo: o
candidato será instado a observar e identificar os mecanismos de funcionamento
da linguagem. Assim, será cobrada não só a compreensão do significado de um
texto, mas também a busca, por exemplo, de uma palavra que sintetize as ideias
apresentadas. Ou então, de uma expressão que as repita em outras palavras. Ou ainda
as manifestações dos diferentes níveis de linguagem, principalmente o formal e
o coloquial, assim como a transferência de uma frase de um registro para outro.
Mas o que se tem mostrado mais interessante é que muitas vezes essa prova exige
que o candidato observe um fato apresentado no enunciado para, sem se preocupar
em classificá-lo ou rotulá-lo, localizar uma alternativa em que haja uma frase
como o mesmo mecanismo linguístico.
Quanto à Gramática,
percebe-se que não há mais espaço para filigranas como a cobrança do tipo de
sujeito ou oração, ou a identificação da diferença entre um complemento nominal
e um adjunto adnominal, entre um predicado verbal e um predicado nominal. As
questões têm-se mostrado mais inteligentes, na medida em que mais razoáveis,
pois cobram o que é útil para qualquer profissional, não somente para os
especialistas em língua. Assim, quando aparecem testes sobre regência,
concordância, crase, nota-se que a resposta é obtida sem absurdos conhecimentos
gramatiqueiros, mas com um pouco de raciocínio e intelecção textual. No mesmo
campo estão questões que pedem para que o candidato indique o valor de uma
palavra, principalmente o de um pronome. Alcança a resposta quem compreende o
contexto em que ela está inserida. Ou seja, quem sabe ler.
Enfim, é nesse ponto que a FUVEST se tem consagrado como um excelente exame. É uma prova que apenas verifica quem
tem competência linguística. Essa habilidade será essencial para quem quiser
estudar com eficiência na vida acadêmica. Qualquer que seja a carreira.
No começo deste mês, alguns jornais publicaram
a foto (vista acima) de Paulo Henrique, 9 anos, mergulhando no esgoto do canal
do Arruda, em Recife. O que levou esse menino a fazer algo tão nojento quanto
inacreditável? Os 200 reais mensais que sua mãe recebe como faxineira são
insuficientes para o sustento da família, por isso o garoto tem de entrar
naquela água imunda e fétida para catar latinha para reciclagem. Obtém no
máximo 10 reais por dia. Trata-se, sem dúvida, de um fato chocante, mas que
passou quase despercebido do grande público, afogado em acontecimentos não
menos importantes como o uso de beagles para pesquisa cosmética, a ostentação
vazia e ingênua do rei do camarote, a rebeldia mimada e delinquente de Justin
Bieber, o assassinato cruel e inexplicável do pequeno Joaquim e as primeiras
prisões ainda que tardias dos participantes do escândalo do mensalão.
A mãe de Paulo Henrique confirma ter
preocupação com essa atividade do filho, pois teme que ele pegue alguma doença.
Na verdade, o contágio já se efetivou e está há muito disseminado, mas não só
no garoto. Ele é só a pontinha do iceberg
que flutua nesse esgoto. O resto engloba todos os fatos listados acima, que
curiosa e paradoxalmente, submersos, ajudaram a ocultar o drama social dessa
família. O pequeno é a parte mais visível de um problema, tornado invisível. É
mais um entre tantos incômodos que fazemos de conta que não existem. Enquanto
as prefeituras não “higienizam” essa realidade, nosso olhar seletivo
preocupa-se em fazer de conta que ela não está aí.
Às vezes, certos malucos quebram esse
esquema de apatia, conformismo, comodismo, egoísmo e cegueira. Alguns deles são
os literatos. Em 1973, por exemplo, época do milagre econômico que gerou muito
do que o Brasil é hoje, José Paulo Paes publicava Meia Palavra, no qual se encontra o poema “Seu Metaléxico”:
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos
Páginas e páginas de filosofia,
sociologia e história foram gastas para analisar o Brasil. De maneira
igualmente competente, mas bem mais concisa, Paes dá sua explicação por meio da
fragmentação e recombinação de palavras, produzindo efeitos bastante
chamativos. Ao misturar, por exemplo, “economia” e “miopia”, transmite a ideia
de que as políticas econômicas não enxergam o verdadeiro problema da nação.
Basta lembrar que com a crise de 2008, provocada de certa forma pelo excesso de
consumo nos EUA, a tática usada tanto lá quanto aqui foi justamente criar
linhas de crédito. É como jogar gasolina para apagar incêndio. Não se repensou
todo o nosso sistema de valores, o que nos levaria a concluir que não
precisamos de tanto – podemos ser mais felizes com bem menos. Para que ter
sempre o carro do ano? Para que ter sempre a mais nova versão de smartphone? Para que ter sempre a última
roupa da moda? Por que esse consumo insano e desenfreado tornando-nos “consumidoidos”?
Estamos nos matando para sempre ter, esquecendo o mais vital, que é viver. Somos
“suicidadãos”.
Haveria um ideal nobre sustentando esse
nosso comportamento: nosso consumo faz a economia girar, gerando mais riqueza
para o país. Trata-se, na verdade, de uma “utopiada”, uma utopia que não pode
ser levada a sério. Quem tem coragem de falar para Paulo Henrique sobre essa
pujança econômica do Brasil, a 6ª do mundo? Só um “patriotário” teria essa
disposição. Ou o garoto do esgoto é um dano colateral? Um caso perdido? Então a
política desenvolvimentista brasileira é uma mentira (“desenvolvimentir”), pois
não produz igualdade social. Ou esta seria mais uma utopiada?
Dessa forma, entende-se que a
literatura, por meio do uso estético da linguagem capaz de afetar nosso
aparelho emotivo, muitas vezes serve para acender uma luz em meio à escuridão
alienante, funcionando como instrumento de resistência ao descalabro em que se
encontra a sociedade. Não é essa a sua principal função, mas, quando bem
realizada, faz-nos ter esperança na espécie humana. Mesmo quando a mensagem é
pessimista, é sinal de que nem tudo está perdido.
Nos posts
de 01 de abril de 2012 e 27 de outubro de 2013 falou-se de paródia. Ficou claro
que se trata de um texto que imita outro, alterando seu tom original, o que
provoca efeito humorístico. Esse procedimento, no entanto, não pode ser
confundido com intertextualidade, que é a referência que uma obra outra faz de
outra, muitas vezes incorporando seus elementos. É o que acontece no comercial
acima, do Focus.
Inicialmente, deve-se lembrar que a
propaganda é um texto que tem a função de divulgar um produto. Para tanto,
utiliza-se de inúmeros recursos com a intenção de chamar a atenção do receptor
para a mensagem que está sendo divulgada. Para tanto, na peça acima, a modernidade
do veículo é ressaltada graças à comparação com os avanços vistos em filmes de
ficção científica. Nesse ponto, ocorre a intertextualidade.
Um cinéfilo refinado notaria que a peça
publicitária utiliza uma música com violinos em crescendo, criando um clima
épico. É uma composição praticamente gêmea da que aparece em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012).
Entretanto, mergulhemos em outras associações mais simples.
A primeira referência que se estabelece
é com a saga Star Wars. A publicidade
abre com uma impactante corrida de veículos, o que nos faz lembrar a cena da pod race, apontada como a única de valor
no Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999),
e que na verdade era por sua vez uma intertextualidade com a corrida de bigas
de Ben Hur (1959).
Pouco depois, aparece uma agitada e
lotada avenida aérea. Ocorre agora uma referência à paisagem de Coruscant, a
capital do Império, vista nos episódios I, II (2002), III (2005) e VI (1983) de
Star Wars.
Em seguida, a propaganda mostra o Focus
estacionando automaticamente. Seu design robusto
contrasta com o caráter exótico dos longilíneos veículos que também parqueiam
sozinhos. Estabelece-se uma ligação com Eu,
Robô (2004), em que se depara com a comodidade de locomoção e garagens
automatizadas.
Logo após, vemos uma cidade noturna e
chuvosa, como imensos painéis propagandísticos digitais com a figura de uma
japonesa. Pratica-se aqui uma intertextualidade com Blade Runner (1982), filme que se passa na sombria Los Angeles de
2019.
Por fim, o veículo é visto em
aceleração, emparelhado com outros dois em um cenário dominado pelo neon. Manifesta-se
a associação com a corrida de motos em Tron
– O Legado (2010), filme que parece ter caprichado no visual futurístico
retrô – e só.
Essas referências que a peça
publicitária faz a várias obras cinematográficas de ficção científica consiste,
portanto, como já se falou, no recurso conhecido como intertextualidade. É o
que se manifesta, por exemplo, na canção “Até o Fim” (1978):
O ouvinte com um bom repertório
cultural, ao ouvir o início da composição, imediatamente se lembra da primeira
estrofe do primeiro poema (“Poema de Sete Faces”) do primeiro livro de Carlos
Drummond de Andrade, Alguma Poesia (1930):
Quando nasci, um
anjo torto
desses que vivem na
sombra
disse: Vai, Carlos!
ser gauche na vida.
Em ambos os textos ocorre o nascimento
do enunciador sendo visto de forma simbólica, nele ocorrendo um anjo que
vaticina, que marca o destino daquele que acabava de vir ao mundo.
Carlos Drummond de Andrade
É importante lembrar que a
intertextualidade não constitui plágio. A incorporação de elementos de um texto
em outro não tem relação com esse crime empobrecedor. Na verdade, a graça desse
expediente está em fazer com que o interlocutor perceba as fontes que estão
sendo mencionadas. Além disso, não é um expediente de falta de criatividade, de
penúria intelectual, mas um processo enriquecedor que é fruto da comunicação
entre textos. O que lembra bem o slogan da
propaganda do Focus (“tecnologia do futuro na sua garagem”): é colocar os
ingredientes dos outros no seu texto.
No post de 24 de março de 2013 falou-se de como é importante prestar atenção ao
viés segundo o qual um texto é produzido. Ter consciência do ponto de vista do
enunciador faz com que se entenda o filtro que ele utiliza na expressão de suas
ideias e, assim, perceber suas limitações ou manipulações interpretativas. Em
outros termos, captar bem mais do que ele está declarando. No entanto, é também
interessante detectar quando o autor trabalha esse elemento para fazer com que
a voz enunciadora acabe afirmando mais do que aquilo que está literalmente em
suas palavras. É o que acontece na canção “The Fear” (2008), da britânica Lily
Allen. Nela, melodia, voz e letra assumem coerentemente um ar cândido, quase
infantil, por meio do qual o eu-lírico confessa suas preocupações fúteis: ser
uma bela celebridade endinheirada. É válido ler essa composição:
I want to be rich and I want lots of money
I don't care about clever I don't care about funny
I want loads of clothes and fuckloads of diamonds
I heard people die while they are trying to find them
I'll take my clothes off and it will be shameless
'Cause everyone knows that’s how you get famous
I'll look at the sun and I'll look in the mirror
I'm on the right track yeah I'm on to a winner
I don't know what's right and what´s real anymore
I don't know how I'm meant to feel anymore
When do you think it will all become clear
'Cause I'm being taken over by The Fear
Lifes about film stars and less about mothers
It's all about fast cars and passing each other
But it doesn’t matter cause I'm packing plastic
and that's what makes my life so fucking fantastic
And I am a weapon of massive consumption
and it’s not my fault it’s how I'm programmed to
function
I'll look at the sun and I'll look in the mirror
I'm on the right track yeah I'm on to a winner
I don't know what´s right and what´s real anymore
I don't know how I'm meant to feel anymore
When we think it will all become clear
'Cause I'm being taken over by The Fear
Forget about guns and forget ammunition
'Cause I'm killing them all on my own little mission
Now I'm not a saint but I'm not a sinner
Now everything is cool as long as I'm getting thinner
I don't know what´s right and what´s real anymore
I don't know how I'm meant to feel anymore
When do you think it will all become clear
'Cause I'm being taken over by fear
A letra mostra a sinceridade de frases
de um cinismo indecente: ” “everything is cool as long as I’m getting thinner” (“tudo
está bem desde que eu me torne cada vez mais magra”). Entretanto, a força desse
texto não está no seu aspecto literal, mas no que deixa mal escondido sob o
tapete. Para tanto, basta observar trechos como “It’s not my fault, it’s how
I’m programmed to function” (“Não é culpa minha, é como eu fui programada para
funcionar”), “I am a weapon of massive consuption” (“Eu sou uma arma de
destruição em massa”, em que “consuption” também está ambiguamente ligado a
consumismo, tema subjacente da canção), “cause I’m killing them all on my own
little mission” (“porque eu estou matando todos eles com minha própria pequena
missão”, em que “little” ganha uma força surpreendente para o sentido do
texto).
Lily Allen
Mas o momento em que o aspecto crítico
se mostra mais escancarado é em “I want loads of clothes and fuckloads of
diamonds / I heard people die while they are trying to find them” (“Eu quero um
monte de roupas e uma porrada de diamantes / Eu ouvi dizer que pessoas morrem
enquanto tentam consegui-los”). Nele, há uma aparente desconexão entre os
versos. Aparente. Expõe-se aqui a relação entre a posse de diamantes, e todos
os valores de ostentação de luxo a que essa ação está ligada, e as condições
desumanas e sangrentas em que esse minério é extraído na África. Assim, está e
não está no texto uma crítica ao consumismo. A autora não precisou fazer um
ataque inflamado em terceira pessoa, um recurso mais comum, visto, por exemplo,
na instigante canção “Stupid Girls” (2006), da norte-americana Pink:
Para se ter uma ideia da virulência do
ataque dessa composição, é importante uma rápida leitura de sua letra:
Stupid girls, stupid girls,
stupid girls
Maybe if I act like that, that guy will call me back
Porno paparazzi girl, I don't wanna be a stupid girl
Go to Fred Segal, you'll find
them there
Laughing loud so all the little people stare
Looking for a daddy to pay for the champagne
(Drop a name)
What happened to the dreams of a girl president
She's dancing in the video next to 50 Cent
They travel in packs of two or three
With their itsy bitsy doggies and their teeny-weeny tees
Where, oh where, have the smart people gone?
Oh where, oh where could they be?
Maybe if I act like that, that
guy will call me back
Porno paparazzi girl, I don't wanna be a stupid girl
Maybe if I act like that, flippin' my blonde hair back
Push up my bra like that, I don't wanna be a stupid girl
(Break it down now)
Disease's growing, it's epidemic
I'm scared that there ain't a cure
The world believes it and I'm going crazy
I cannot take any more
I'm so glad that I'll never fit in
That will never be me
Outcasts and girls with ambition
That's what I wanna see
Disasters all around
World despaired
Their only concern
Will they fuck up my hair
Maybe if I act like that, that
guy will call me back
Porno paparazzi girl, I don't wanna be a stupid girl
Maybe if I act like that, flippin' my blonde hair back
Push up my bra like that, I don't wanna be a stupid girl
(Do ya thing, do ya thing, do ya
thing)
(I like this, like this, like this)
Pretty will you fuck me girl, silly as a lucky girl
Pull my head and suck it girl, stupid girl!
Pretty would u fuck me girl, silly as a lucky girl
Pull my head and suck it girl, stupid girl!
Maybe if I act like that,
flippin' my blonde hair back
Push up my bra like that, stupid girl!
Maybe if I act like that, that
guy will call me back
Porno paparazzi girl, I don't wanna be a stupid girl
Maybe if I act like that, flipping my blonde hair back
Push up my bra like that, I don't wanna be a stupid girl
A crítica de Pink é também ácida. Basta
notar a corrosão que é feita não só no título e na abertura da composição, que
ofende o alvo da crítica, mas também no trecho “What happened to the dreams of
a girl president / She's dancing in the video next to 50 Cent” (“O que
aconteceu com os sonhos de uma garota presidente? / Ela está dançando no vídeo
junto a 50 Cents”). Condena-se a estúpida vacuidade a que o gênero feminino é condenado pela sociedade, qualidade ilusoriamente vista como positiva. Trata-se do desmascaramento da ideologia, assunto já comentado no post de 14 de abril de 2013. É certo que ocorre também o uso da primeira pessoa, como no
texto de Allen, mas o importante aqui é notar a diferença entre alguém de fora
atacar, ou seja, a crítica ser feita em terceira pessoa, recurso ao qual nós
estamos acostumados, e a criatividade em se dar voz ao próprio setor a ser
vilipendiado. Seu próprio discurso o condena. Assim, o viés acaba sendo
manipulado para produzir efeitos retóricos surpreendentes. No caso mais
rotineiro, pode-se até pensar que o discurso de Pink seria baseado na inveja, o
que seria mais difícil de apontar no texto de Lily Allen.
Pink
Esse poderoso recurso é sabiamente
explorado em clássicos como Memórias
Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom
Casmurro (1899), de Machado de Assis. Neles, o Bruxo de Cosme Velho dá a
voz a membros da elite brasileira que, por meio de seu discurso, acaba pondo a
nu o vazio da existência de seus membros, entregues ao tédio, ao autoritarismo
e a um comportamento caprichoso garantido por uma folgada condição econômica.
Assim, Brás Cubas pode explorar a miséria de Dona Plácida ou brincar com as
esperanças da nobre Eugênia. Pode ainda escrever de maneira digressiva, sem respeitar
o ritmo ou à paciência do leitor. E no fim confessar que tudo isso é natural e
até correto. O mesmo ocorre com Bentinho, que, apoiado em uma sociedade
patriarcal, pode sufocar a energia de vida da brilhante Capitu, até fazê-la
perecer moral e fisicamente no exílio, tudo em razão das vontades mimadas de um
adulto que não largou a infância.
Machado de Assis
Enfim, os exemplos acima são bastante
convincentes para que se entenda que o viés é um elemento importante para a
construção e principalmente interpretação de um texto. Prestar atenção ao ponto
de vista do enunciador ajuda a entender o universo consciente e até
inconsciente do ato de enunciação, o que contribui saborosamente para a riqueza
da leitura.