domingo, 24 de abril de 2016

Fotojornalismo: manipulação e distorção - Parte II

Na última postagem (17 de abril de 2016), discutiu-se de que maneira o fotojornalismo utiliza a ligação entre elementos visuais para produzir significado. Outros exemplos dessa atividade serão abordados hoje, como o do fotógrafo israelense Marc Israel Sellem: Retrata-se aqui o encontro entre a chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Observe-se a roupa escura, sóbria dos dois. Note-se ainda ao centro a bandeira israelense ao centro, com o azul que se reflete na blusa que a líder europeia tem sob seu terninho. Esse mesmo jogo pode ser visto nas laterais da foto entre a escondida bandeira da Alemanha, que tem o vermelho refletido na gravata do político de Israel. Há uma harmonia aqui, inclusive pelo fato de o azul, central, chamar a atenção na política, e o vermelho, periférico, estar parcialmente oculto pelo braço do político. Esse intercâmbio de elementos parece sugerir a união entre dois povos que no passado eram inconciliáveis. Poder-se-ia pensar que feridas estavam finalmente cicatrizadas. No entanto, o fotojornalista põe denotativa e conotativamente sombra sobre esses fatos. O dedo erguido de Netanyahu projeta um falso bigode sobre Merkel, fazendo vir à tona a imagem de Hitler. Novos significados surgem: o olhar de soslaio (malícia?) e o gesto impositivo do israelense fazem com que não se veja mais o olhar da alemã como sereno, mas como de alienação à troça que se está fazendo ou, se se levar em conta a postura curvada dela, como de abatimento diante da triste e irrevogável realidade: a Alemanha ainda não conseguiu apagar seu passado sombrio.
O mesmo tipo de abordagem, em que o autor sabe aproveitar na rapidez dos acontecimentos ingredientes fortuitos para a produção de sentido, pode ser visto a seguir: 



Aparentemente, trata-se de uma cena sem grande riqueza: funcionários da FIFA envolvidos em corrupção foram presos e, no momento flagrado, ao serem conduzidos para a polícia, são protegidos, em nome da preservação de identidade contra os olhares de abutre da imprensa. É interessante o contraste entre o escuro do carro e da roupa dos figurantes, tanto dos protetores quanto dos infratores, e a brancura do lençol. Aliás, quase todo o ambiente é marcado pela claridade, quebrada apenas pelo verde da árvore (sinal de vida?) e pelo escuro dos elementos ligados ao processo criminalístico. Haveria a significação de tempos mais luminosos chegando ou enxergar isso seria exagero de interpretação? No entanto, o que é bastante marcante na foto em análise é o escrito na placa do estabelecimento: “vanity”, que em inglês quer dizer “vaidade”. Funcionaria como um carimbo, atestando o pecado capital responsável pelo lamentável desvio de caráter.
Outro exemplo bastante valioso é o da foto do dinamarquês Mads Nissen, que ganhou o World Press Photo em 2015: 



A imagem acima enfoca um momento íntimo de um casal homoafetivo. Basta notar o carinho delicado que o curvado dedica ao deitado, que se entrega ao toque, fechando os olhos. Essa ideia de privacidade também está sugerida pela cortina fechada e pela luminosidade fraca. No entanto, essa mesma iluminação produz um jogo de luz e sombra que serve para destacar a escuridão, o que soma à imagem um caráter sombrio. Quando se tem ideia de que essa fotografia foi produzida para retratar a homossexualidade na Rússia, sua significação ressalta. Trata-se de uma crítica aos tempos soturnos em que vivem os russos, com o homossexualismo enfrentando cerceamentos e perseguições alimentados até mesmo pelas esferas governamentais.
Por fim, um exemplo da Associated Press bastante intrigante, pois que lembra as intervenções artísticas do politizado Banksy:

  
Focaliza-se a repressão da polícia turca a um protesto realizado em Ankara por estudantes universitários em 2014. A beleza do campo de delicadas flores amarelas produz um efeito bastante agradável aos olhos, reforçado pela harmonia cromática das figuras de azul. No entanto, o cassetete erguido de uma delas não nos deixa iludir: um jovem, escondido pela vegetação, está apanhando. Assim, entendemos que o outro soldado está procurando mais um alvo. Produziu-se então uma peça de estranha beleza poética marcada pela ironia, o que provoca uma crítica incômoda do mesmo nível de cenas de Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick.
Enfim, os casos apresentados nesta postagem e na da semana passada foram suficientes para mostrar que o fotojornalismo é capaz de gerar sentido pela manipulação de elementos visuais. O problema está na fronteira bastante tênue entre manipular e distorcer. Essa é uma questão complexa que entra no mérito de definições como de viés (postagem de 24 de março de 2013) e de realidade, que ainda serão discutidas aqui em momentos oportunos. Por ora, basta ter em mente que o mais aconselhável é o desenvolvimento de capacidade crítica constante e alerta para não se deixar levar pelo senso comum – ou, pior, pelo senso de um grupo jornalístico.


domingo, 17 de abril de 2016

Fotojornalismo: manipulação e distorção - Parte I



Já foi dito aqui nO Magriço Cibernético muitas vezes, e nunca além do necessário, que o sentido de um texto é garantido pela ligação entre os elementos que o compõem. Nas postagens anteriores (03 e 10 de abril), verificou-se que a manipulação desajeitada desses ingredientes produz resultados desastrosos e indesejados. Hoje, começaremos a ver exemplos do fotojornalismo de como efeitos surpreendentes podem ser obtidos graças ao bom manuseio dessas partes integrantes.
O primeiro exemplar a ser analisado foi publicado na primeira página do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de 03 de abril de 2016, em matéria sobre a nova fase da novela Os Dez Mandamentos. O fotojornalista Ricardo Borges, da Folhapress, conseguiu um jogo de dissonância bastante chamativo entre a atmosfera de Bíblia criada pelas roupas e pelo set de filmagem e a atmosfera de tecnologia e de cultura dos selfies criada pelo celular. Haverá aí a mensagem subliminar da impossibilidade de se resgatar com fidelidade o passado, pois este sempre estaria contaminado pelo espírito do tempo que o observa?
No entanto, essa forma de trabalho editorial não é nova, como se comprova na já clássica imagem abaixo:



Vemos acima o então presidente Jânio Quadros, que governou o Brasil de forma polêmica em 1961. Todo o seu gestual desarticulado acaba passando muita informação valiosa. O fato de rosto, tronco, perna esquerda e perna direita assumirem cada um posições diferentes parece metaforizar o caráter errático das atitudes políticas desse governante, como os historiadores podem atestar.
Outra imagem interessante é a seguinte:

  
Nessa foto fica claro no que se baseia uma boa peça do fotojornalismo: captar o momento exato, às vezes com manipulação de ingredientes, de maneira a criar uma mensagem subentendida. No presente caso, a luz incidindo sobre os dedos de José Serra produz atrás dele uma sombra que imita chifres, sugerindo a imagem desse político como malévolo ou até mesmo diabólico.
Nesse ponto, salta uma questão preocupante: até que ponto essa manipulação pode resultar em distorção da realidade? Pode-se realmente acreditar que o referido político teria um lado demoníaco? Para não tornar essa discussão partidária, observe-se outro exemplo, vindo de outro espectro político:


A foto acima, de Pedro Ladeira, serviu para ilustrar matéria de 14 de fevereiro de 2015 da Folha de S. Paulo (p. A5) a respeito de suspeita de que o então ministro da justiça, José Eduardo Cardozo, teria tido encontros com advogados dos réus da Lava Jato. A forma como essa autoridade e o procurador-geral da República Rodrigo Janot foram flagrados, com mãos cobrindo boca, sugere uma disposição para trabalhar às ocultas, o que contamina a reportagem, pois deixa a entender que a reunião com os advogados foi uma atitude escusa.
A análise dos exemplos acima deixa reforçada uma dúvida: ao captar um flagrante que represente não um momento específico, mas a conjuntura em que está inserido; ao confirmar a tão batida máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras, até que ponto o fotojornalismo estaria a serviço de uma informação confiável?  Para complicar essas considerações, veja-se mais uma foto: 



O fotógrafo Wilson de Sousa Jr, do Estado de S. Paulo, captou o instante em que Dilma Roussef participava de uma cerimônia em 2011 na Academia das Agulhas Negras. Era uma semana terrível para a presidente, pois acabara de, no espaço de oito meses, afastar o quinto ministro graças a acusações de corrupção. A chefa de estado havia ganhado a incômoda fama de faxineira, mas a foto, que chegou a ser premiada na Espanha, acabou criando outra realidade: a de uma líder atacada pelas costas. Além disso, sua postura inclinada e retraída sugere enfraquecimento. Há muito mais ainda a interpretar, como o verde-amarelo do pulso do atacante, a luva branca, o ambiente militar em que a vítima se encontra, o verde (e não o vermelho) de sua roupa. Entretanto, todos esses elementos reforçam a discussão problemática que se está tendo a respeito da linha tênue entre manipulação e distorção. No plano denotativo, a espada está logo atrás da comandante. No entanto, somos levados (ou iludidos) pelo fotojornalista a crer em outra realidade, o que criou leitura diferente no plano denotativo.

Enfim, encontram-se em todos esses exemplos fatores que colocam em foco como a manipulação de elementos constitutivos de um texto pode criar significados a refletir, reforçar ou até mesmo distorcer a realidade em que se está inserido. Essas questões continuarão a ser discutidas na próxima postagem.

domingo, 10 de abril de 2016

A construção do texto e os aprendizes de feiticeiros




Na semana passada (post de 03 de abril de 2016), foi discutida a importância da consciência de que o sentido de um texto é garantido pela ligação que se estabelece entre os elementos que o compõem. Dessa forma, a manipulação errada desse ingrediente produz efeitos indesejados e até desajeitados, como os de um atrapalhado aprendiz de feiticeiro. Vimos exemplos desse descuido no âmbito das frases e orações. Agora veremos como tais podem comprometer a estrutura geral de um texto.
O artigo acima, de 19 de outubro de 2014, é de Inácio Araújo, que escreve coisas bastante interessantes para a Folha de S. Paulo. No entanto, na peça em análise, seu condão não foi feliz. Quando se olha o título e a foto que ilustra a matéria, sabe-se que se vai discutir A Lista de Schindler (não se entende por que aspas simples no título e duplas no corpo do texto, quando o ideal seria apenas o destaque em negrito ou itálico...). O primeiro parágrafo apresenta uma ótima ideia, que merecia ser bem mais desenvolvida: a transformação do sagrado, marcado pelo inatingível e pelo insuportável, em espetáculo. Quanto tema delicioso aqui! Para começar, há muito o que se discutir na diferenciação entre inatingibilidade e suportabilidade. Ou, se o autor está considerando essas categorias como equivalentes, há mais ainda para debater (o problema é que a forma sintética do texto, quase epigramática, não torna claras as ideias: essas categorias são divergentes ou convergentes?).
O segundo parágrafo compromete mais ainda o desenvolvimento do artigo. Fala-se de uma passagem de Levi para Spielberg, excelente jogo de palavras, que não tem razão de aparecer em um parágrafo isolado, já que é ainda parte do raciocínio do parágrafo anterior. Por que ficou solto?
Então, deparamo-nos com o terceiro parágrafo, que começa justamente com a expressão “na verdade”, anunciadora de mudança de rumo – o que de fato acontece; passa-se a falar de A Fuga das Galinhas. E o título e a foto, que anunciaram A Lista de Schindler? Pipoqueia-se tanto tematicamente que é natural que, quando no final desse trecho se diz que “é um filme mais digno sobre o assunto”, fica-se na dúvida: qual assunto? O sagrado? O insuportável? O inimaginável? O espetáculo? A passagem do sagrado para o espetáculo?
O resto do artigo não muda muito. O quarto parágrafo apresenta um insight bastante interessante (a consciência do próprio extermínio), mas a expressão que o introduz, a mesma que abriu o parágrafo anterior, reforça que se está tomando mais outro rumo. O quinto parágrafo faz um gancho entre os dois filmes, mas continua desarticulado do conjunto e se mostra superficial, pois insiste em lançar um tema, sempre interessante, e não aprofundá-lo. Além disso, não se entende por que está separado do anterior. A própria expressão “essa animação”, que o inicia, sozinha não faz sentido, ou seja, não garante a autonomia do parágrafo. O sexto parágrafo é o tiro suicida e inconsciente de misericórdia, pois lança um tema dissonante que surge do nada e é jogado ao nada, pois, ao mesmo tempo em que puxa a abordagem para as alturas, já que fala sobre o sentido e a consciência de nossos hábitos essenciais, é largado, não é desenvolvido.
  
Mickey como o desastrado Aprendiz de Feiticeiro em Fantasia (1940).

Seis parágrafos, seis temas diferentes. O jornalista parece que pegou o espírito televisivo e começa a zapear pelo assunto, sem se deter em nenhum, tornando seu texto superficial. Pode-se desculpá-lo lembrando o que Rubem Braga já havia mencionado: a pressão do meio jornalístico, preocupado com produção periódica, sem se importar com inspiração. No entanto, quando o grande cronista havia tematizado isso, foi com a intenção de falar sobre a falta de assunto. Aliás, Braga tinha a maestria de conseguir superar esse estresse e redigir até mesmo sobre o vazio temático – caso bastante diferente de Inácio Araújo, que está com excesso de matéria, mas a apresenta de forma desarticulada e sem profundidade. Lembra o descompromisso da geração do ficar, que se envolve emocionalmente com tantos em uma só noite, mas sai das baladas vazia afetivamente. Estaria o autor atendendo ao universo de valores de seu presumido público?
Enfim, é importante ter em mente que o sentido de um texto não se dá apenas pelas ideias que ele apresenta. O exemplo acima analisado é eficaz em provar isso. É necessário que se estabeleça uma adequada relação entre seus constituintes, do contrário, o raciocínio estará comprometido e o esforço da escrita estará inutilizado.



Quinta, 14 de abril, às 19h30,
SESC Ribeirão Preto





domingo, 3 de abril de 2016

A magia da construção de um texto




Sempre necessário se faz lembrar que um texto é mais do que um amontado de palavras – seu sentido é estabelecido pela ligação que se dá entre elas.  Essa regra, essencial para a compreensão do que se lê, torna-se tão automática que, por causa de ineficiência de redação, muitas vezes somos levados a fazer interpretações inadequadas. É o que se vê em alguns exemplos hilários retirados a esmo da internet nos últimos tempos. O primeiro deles veio de um grande portal, o G1.



Além de haver uma imprecisão por causa de ambiguidade na manchete (qual foi o pedido especial do Papa: a cesta de ovos para Santa Clara ou o aparecimento do sol?), estabelece-se uma conexão estranha de ideias. O raciocínio mais lógico, e cabível para um jornalismo sério, dá conta apenas de uma relação temporal: a solicitação foi feita em um momento anterior ao do aparecimento do astro-rei.  No entanto, a composição possibilita que se deixe a entender – erro que deve ser evitado para um órgão de imprensa sério – uma correlação causal-consecutiva: o sumo pontífice fez um pedido (causa) e o céu se abriu (consequência). A fé pode fazer com que alguém acredite que um líder religioso seria capaz de alterar condições climáticas, mas essa ordem de pensamento não deve existir em um órgão respeitável de imprensa.
Mais um exemplo vem de outra página do mesmo grupo G1, a Ego, voltada para notícias ligadas a celebridades:




O problema nesse caso está na ordem desajeitada em que as palavras foram dispostas, gerando um sentido desagradável. A intenção do redator era dizer que Beatriz (informação 1), filha de Fátima Bernardes (observação especial sobre a informação 1), aparece na foto com os jogadores Neymar Jr e Oscar (informação 2). No entanto, a inoperância redacional deixou a entender que Beatriz era filha de Fátima Bernardes com Neymar Jr – ou, pior e mais absurdo, filha que Neymar Jr e Oscar geraram em Fátima Bernardes. Um simples ajuste teria evitado essa situação constrangedora: “Beatriz (filha de Fátima Bernardes) com Neymar e Oscar” ou “Beatriz, filha de Fátima Bernardes, posa diante de Neymar e Oscar”, entre tantas outras possibilidades menos lesivas.
O exemplo a seguir foi colhido de um perfil oficial no Twitter de um órgão governamental (e que deve, portanto, zelar pelo respeito aos direitos humanos) – o do metrô do Distrito Federal:
  

 Eis mais uma caso em que a má manipulação das palavras provocou um efeito que pôs a perder a intenção positiva da mensagem. A proposta – louvável – era a defesa da integridade física e moral da mulher, que vem sendo desrespeitada em vários momentos do cotidiano, inclusive no massacrante transporte público. No entanto, a simples presença do vocábulo “outro” detonou a índole benévola do emissor da mensagem, pois fez com que se entendesse que, para o seu ponto de vista, ser mulher seria um entre tantos outros tipos de deficiência. Como evitar essa gafe? Uma mera troca de “outro” por “qualquer” ou então a eliminação de qualificações para “deficiência”: “para mulheres e pessoas com deficiência”. 
Enfim, esses três exemplos – entre tantos outros colhidos de nosso dia a dia – mostram que o sentido de um texto é garantido pela magia da articulação de palavras. Fácil se torna perceber que a manipulação inadequada desses ingredientes é capaz de produzir efeitos desajeitados típicos de um infeliz aprendiz de feiticeiro.



domingo, 20 de março de 2016

Sublimidade em tempos de cólera: Miserere, de Allegri

Entramos na Semana Santa, preparação para o momento mais importante do universo cristão: a Páscoa. Em outros tempos, esse período era tomado de uma rotina diferente, como ocorrera no século XVII, época da peça acima, transformação em canto do Salmo 51, de história interessante. O rei Davi unira-se carnalmente a Betsabá, esposa de Urias. E, para acobertar sua falta, mandara matar o marido dela. O profeta Natã então advertira o poderoso da gravidade do atentado contra dois mandamentos divinos (“Não cobiçarás a mulher do próximo” e “Não matarás”), o que provocou no monarca profundo arrependimento. É nesse momento que, de acordo com a tradição bíblica, Davi proferiu o belo texto em questão, marcado pela consciência do pecado, pelo espírito de penitência e pelo pedido de misericórdia.
Na década de 1630, o italiano Gregorio Allegri compôs essa preciosa peça para dois corais. O papa Urbano VIII ficou tão encantado com essa obra que a elevou ao nível do sagrado: determinou que só fosse tocada durante a Semana Santa e apenas na Capela Sistina. Além disso, decretou que qualquer um que copiasse sua partitura estaria condenado à excomunhão. Criou-se então uma lenda, que atraiu mais fatos legendários, como este: Mozart, em 1770, ou seja, com apenas 14 anos, esteve em Roma, ouviu a composição, memorizou-a integralmente e a transcreveu, permitindo, assim, que essa música saísse dos muros do Vaticano.

Gregorio Allegri (1582-1652)

Mas, ainda que se dispa Miserere da lenda e se atente apenas à sua constituição e ao contexto em que está inserido, não tem como não continuar alçando essa obra ao plano divino. É uma das joias que carrega tanto a beleza do Renascimento, que é a sua base, quando do Barroco, para o qual espalha seus valores. Diferente do canto gregoriano, em que o grupo de vozes exclusivamente masculinas assume um único tom e uma única configuração, aqui nós temos a harmoniosa multiplicação vocal em inúmeros perfis sonoros. Sente-se algo do antropocentrismo, já que o homem, como centro do universo, conquista vocalmente o espaço, ainda que seja para se mostrar humilde e pedir o perdão divino, valorizando o Senhor – preocupação do teocentrismo. Basta prestar atenção.
Observe como o coro desabrocha, cantando a expressão essencial da obra, “miserere mei” (“tem misericórdia de mim”). Além disso, note como de 24s até 48s a expressão “misercordiam tuam” (“tua misericórdia”), também importante, vai-se espalhando em diversas combinações pelo coral. Em 1min19, uma lindíssima voz feminina começa a se sobressair, um lampejo do que ela será entre 1min41 e 1min59: uma explosão de beleza que se espalha e se destaca por toda a peça. Ela irá se repetir entre 4min e 4min19, entre 6min13 e 6min35 e entre 8mn35 e 8min55. Faz lembrar o clamor que se eleva para conquistar a glória divina, mas não há como também não associá-la ao amor de Deus que se derrama sobre os fieis. Imagem e semelhança: o caráter divino do criador está na âmago da criatura, por mais impura que ela seja.
O poder humano, voltado para o seu senhor, é notado um pouco em 2min20 pela forma como o coro mostra sua força. Mas ele se mostra mais belo entre 2min44 e 3min08. É arrepiante como os melismas (vogais que se espalham por várias notas musicais) se manifestam, a indicar a capacidade que o homem possui. Esse esquema vai também aparecer entre 7min17 e 7min42. Mesmo contrita, humilhada e arrependida, a criação não deixa de mostrar seu potencial. Sabe-se criatura especial, pois tem em si a essência divina e é ela que pode conduzi-lo à elevação.
Ainda que em tempos laicos, ainda que para espíritos ateus, a sublimidade de Miserere é um alento de esperança bastante útil para os tempos sombrios em que vivemos, pois é capaz de mostrar que, por mais indignos que sejamos (e não se deve pensar apenas em questões religiosas), temos uma essência que é capaz de produzir ações elevadas. Felizmente.





Quinta, 14 de abril, às 19h30,
SESC Ribeirão Preto





sábado, 28 de novembro de 2015

FUVEST 2016: breves informações

No próximo domingo será realizada a prova da FUVEST, um dos vestibulares mais importantes do país. Aquele que vai prestá-la precisa entender que, pelo menos em Português, nos últimos anos essa avaliação tem-se mostrado sem sustos, artimanhas, mistérios ou segredos. Sua intenção não é descobrir entre os estudantes potenciais filólogos, linguistas, gramáticos ou literatos, mas apenas selecionar quem tem competência linguística adequada para as diversas carreiras do ensino superior, não importa se de humanas, biológicas ou exatas.
Dessa forma, por exemplo, as questões de literatura não vão se concentrar em literatices sobre quem escreveu tal livro ou qual o nome de tal período estético. O que se cobrará é o reconhecimento dos mecanismos de funcionamento do texto literário. Assim, pode-se indagar o que a repetição de um evento (consoante, rima, vocábulo, ação, o que quer que seja) tem a ver com a dinâmica da obra em análise.
Nesse ponto, há algo que ressaltar. Já que todo texto literário é um produto social, pode-se cobrar do vestibulando o reconhecimento da relação que um romance ou um poema tem com o seu momento histórico. Assim, o banditismo de Jão Fera em Til é um típico sinal de que a região em que ele se encontra, o interior de São Paulo, ainda não havia se civilizado por completo, abrindo caminho para a utilização desses recursos violentos para a manutenção de uma certa ordem.  Ou então, as plantações de Luís Galvão (cana e café) indicam processos econômicos a que o Brasil se havia dedicado. Até mesmo a posição de sua fazenda revela a maneira como essa região se povoou, concentrada inicialmente em atender a zona aurífera de Minas Gerais. Entretanto, não só de História se viverá. É possível fazer uma ponte com Geografia para entender que o tipo de solo que Alencar chama de rico e ferruginoso é nada mais do que a célebre terra roxa.
Além disso, o candidato deve estar preparado para questões que exigirão a comparação entre as nove obras da lista de livros. Assim, deverá captar, por exemplo, que a presença do comerciante italiano em Til e em O Cortiço revela flagrantes da composição de nossa população. Ou então que a escravidão justifica o comportamento cínico de Brás Cubas ou a desvalorização do trabalho rural como se vê em Jão Fera, de Til, e Jerônimo, de O Cortiço. Sem falar que deixa suas feridas em Memórias de um Sargento de Milícias e Sentimento do Mundo. Enfim, serão questões que funcionarão não apenas como verificação de leitura, mas principalmente de compreensão. Nesse ponto, é bastante válido reler os posts dO Magriço Cibernético dedicados a cada um desses livros (21 de janeiro, 24 de março, 29 de abril, 03 de junho, 17 de junho, 24 de junho, 12 de agosto, 16 de agosto, 02 de setembro, 09 de setembro, 26 de setembro, 03 de outubro, 07 de outubro, 17 de outubro e 28 de outubro).
É também importante lembrar que a FUVEST cobra a compreensão dos mecanismos de funcionamento de uma obra literária e não simplesmente a reprodução de clichês analíticos. Assim, por exemplo, em O Cortiço, obra que todo mundo facilmente associa aos ditames do Naturalismo, pode-se cobrar características comuns ao Romantismo, como a exuberância da natureza brasileira ou a sensualidade feminina associada ao ambiente em que a mulher vive. Ou em Capitães da Areia, há que se lembrar que, apesar de se tratar de um romance do regionalismo modernista, a relação entre Pedro Bala e Dora é uma atualização do Romantismo.
Quanto às questões de interpretação de textos que não fazem parte da lista de obras da FUVEST, o que inclui os literários e os não-literários, o esquema será basicamente o mesmo: o candidato será instado a observar e identificar os mecanismos de funcionamento da linguagem. Assim, será cobrada não só a compreensão do significado de um texto, mas também a busca, por exemplo, de uma palavra que sintetize as ideias apresentadas. Ou então, de uma expressão que as repita em outras palavras. Ou ainda as manifestações dos diferentes níveis de linguagem, principalmente o formal e o coloquial, assim como a transferência de uma frase de um registro para outro. Mas o que se tem mostrado mais interessante é que muitas vezes essa prova exige que o candidato observe um fato apresentado no enunciado para, sem se preocupar em classificá-lo ou rotulá-lo, localizar uma alternativa em que haja uma frase como o mesmo mecanismo linguístico.
Quanto à Gramática, percebe-se que não há mais espaço para filigranas como a cobrança do tipo de sujeito ou oração, ou a identificação da diferença entre um complemento nominal e um adjunto adnominal, entre um predicado verbal e um predicado nominal. As questões têm-se mostrado mais inteligentes, na medida em que mais razoáveis, pois cobram o que é útil para qualquer profissional, não somente para os especialistas em língua. Assim, quando aparecem testes sobre regência, concordância, crase, nota-se que a resposta é obtida sem absurdos conhecimentos gramatiqueiros, mas com um pouco de raciocínio e intelecção textual. No mesmo campo estão questões que pedem para que o candidato indique o valor de uma palavra, principalmente o de um pronome. Alcança a resposta quem compreende o contexto em que ela está inserida. Ou seja, quem sabe ler.
Enfim, é nesse ponto que a FUVEST se tem consagrado como um excelente exame. É uma prova que apenas verifica quem tem competência linguística. Essa habilidade será essencial para quem quiser estudar com eficiência na vida acadêmica. Qualquer que seja a carreira.


Resumos, análises e comparações.
Para comprar, 

domingo, 18 de outubro de 2015

ENEM 2016 Orientações breves

No próximo final de semana ocorre mais uma edição do ENEM, prova que, apesar dos tropeços dos últimos tempos, conseguiu ganhar importância no universo dos vestibulandos.  Infelizmente, de um valioso termômetro do nível de ensino do País, transformou-se em um gigantesco vestibular, além de ferramenta de marketing de inúmeras utilidades. Entretanto, é mais útil discutir o que o examinando precisa ter em mente neste domingo na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
O ENEM avalia competências e habilidades (o que não significa que não tenha vez por outra um lado conteudista). Assim, o que o candidato precisa demonstrar é sua capacidade de leitura e interpretação de diferentes tipos de texto, a matéria-prima da prova. Dessa forma, é importante reconhecer e compreender diversas modalidades textuais e captar como elas funcionam socialmente.  Portanto, deve-se entender, por exemplo, que um cartaz apresenta concisão e ligação entre imagem e código verbal em nome da comunicação imediata, ou que um editorial apresenta elementos argumentativos, que uma propaganda tem preocupação em fixar a mensagem na mente no leitor, que uma charge sintetiza em imagem algum tema de clamor social.
Além disso, o candidato deve saber relacionar diversas espécies de texto, verbais ou imagéticos, buscando não apenas semelhanças, mas também diferenças. Ou então reconhecer neles quais são os objetivos do seu autor e a que público se dirige. Num romance de José de Alencar, por exemplo, a descrição idealizada pode servir para revelar que o escritor ou queria sofisticar o seu leitor, ou tinha em mente que quem degustava sua obra era preocupado com ostentação de luxo. Por fim, deve-se também detectar que estratégias um texto possui para influenciar o seu receptor. Basta lembrar que é comum propagandas de cerveja sempre apresentarem gente feliz degustando o produto, dando a entender que se trataria de um vital elixir da bem-aventurança.
No fundo, o que o estudante vai ter de captar são os mecanismos de funcionamento de um texto, perceber que palavras servem para conectar ou retomar ideias, quais termos têm o dom de resumir ou simbolizar pensamentos ou conjunto de valores. Assim, é de vital importância saber detectar a função da linguagem predominante - quando em Memórias Póstumas de Brás Cubas o narrador confessa no primeiro capítulo que por um bom tempo hesitou se começava sua biografia pelo nascimento ou pela morte, ele fez com que a narrativa discorresse sobre ela mesma, o que configura a função metalinguística. Ou então notar como a linguagem pode ser usada para fazer com que o leitor preste atenção à sua construção, configurando a função poética, muito bem vista, por exemplo, no largo emprego de proparoxítonas em "Balada do Mangue", de Vinicius de Moraes, servindo para representar a situação anormal e canhestra de a feminilidade ser usada para prostituição. Além disso, o aluno pode ser instigado a reconhecer a capacidade que os textos têm de preservar nossa identidade e nosso patrimônio cultural. É o que se vê, por exemplo, no poema "Não Sei Dançar", de Manuel Bandeira, ou no romance Amar, Verbo Intransitivo, de Mário Andrade, em que se apresenta o corso: em ambos é descriTo como se festejava o Carnaval em tempos passados.

Quadro de Portinari retratando a zona de prostituição do Mangue no Rio de Janeiro.
Ainda nesse escopo, quem vai prestar ENEM precisa levar em consideração que a língua é um instrumento social e, portanto, suscetível a variações ligadas ao contexto em que é utilizada. Logo, não existe um padrão único, mas vários, que são os níveis de linguagem, todos legítimos, cabendo apenas observar em que situações são adequados. Deve-se então aceitar que a publicidade, entre tantos outros gêneros, utiliza linguagem coloquial para garantir maior alcance à sua mensagem. O que não significa que o padrão culto perdeu sua utilidade: há momentos em que ele é vital, como na documentação científica ou na redação de regulamentos.
Com relação ao corpo, não se deve esquecer que ele é capaz de carregar e transmitir significados, promovendo a criação de identidade, a integração social e a satisfação de necessidades cotidianas. Quando se dança, por exemplo, pode haver uma preocupação em seduzir, divertir, assim como quando se pratica esporte pode estar-se buscando conhecer pessoas ou mesmo competir e garantir a primazia dentro de um grupo social. Ou ainda garantir melhor qualidade de vida. Nesse aspecto, há sempre uma questão que apresenta um texto que versa sobre a necessidade de mudança de hábitos corporais em nome da saúde.
O ENEM cobra também a análise da arte em suas múltiplas manifestações, todas  legítimas, não importando se é um quadro de Cézanne, um concerto de Bach, um grafite nos muros de São Paulo ou o funk erotizado e marginal dos morros do Rio de Janeiro ou de ostentação da periferia de São Paulo. Seguindo essa linha, é vital entender que o conceito de beleza, essencial para a manifestação artística, não é universal, pois é um fenômeno cultural e, portanto, relativo: tanto é  bela uma top model como Gisele Bündchen quanto uma miss plus size ou mesmo uma mulher de pescoço de girafa da Tailândia.


Dentro do campo artístico, atenção especial deve ser dada à literatura. É importante perceber que esse tipo de produção está sempre inserido em seu momento e por isso revela características do seu contexto histórico, social e político. Assim, deve-se lembrar, por exemplo, que o Romantismo, surgido 14 anos após a independência do Brasil, acaba naturalmente expressando ideais nacionalistas. Ou que o Primeiro Tempo Modernista, surgido numa época em que a industrialização de São Paulo já se estava mostrando marcante, acabaria tendo tendências futuristas. Mas é também importante notar dentro dos textos literários quais concepções de sua função ou do processo de construção eles apresentam: um romântico acreditaria que sua arte é essencialmente emoção e, se a obra conseguiu tocar o coração do leitor, já cumpriu sua missão estética, sem que haja preocupação com a forma, o que é o oposto da visão parnasiana, que põe em primeiro plano o artesanato da palavra, ou do Realismo, que privilegia a crítica social. Além disso, é necessário lembrar que certos temas não se prendem a uma escola literária: a valorização da cultura popular, por exemplo, pode ser vista no Romantismo e no Modernismo, assim como o endeusamento da mulher está presente no Trovadorismo, no Classicismo, no Romantismo e no Modernismo de Vinicius de Moraes.
Ademais, o candidato precisa estar antenado às novas tecnologias, sabendo identificá-las, além de mostrar-se capaz de entender seu funcionamento e o impacto social que elas provocam na comunicação e na difusão de conhecimento. De fato, a internet tem servido para que ideias circulem de maneira espantosa, não apenas nas redes sociais, em que pessoas trocam informações, opiniões e conhecimento, mas também em comunicadores instantâneos (as chamadas mídias síncronas) ou e-mail e fóruns (as chamadas mídias assíncronas). Basta lembrar como as manifestações de rua de junho de 2013 ou mesmo as últimas eleições foram alimentadas pelo Twitter e Facebook. Ou então como o contato com arte e entretenimento ganhou novas dimensões, pois a qualquer hora é possível ver um programa de 2014 ou de 1969 pelo Youtube ou Netflix. Livros podem ser lidos em pdf, músicas ouvidas em mp3, o que faz a produção intelectual alcançar um nível antes inimaginável, ao mesmo tempo em que questões como direitos autorais passam a ser repensadas.
Importante destacar: muita atenção deve ser dada à dinâmica de uma questão do ENEM, muito diferente da de outros vestibulares. Esse grande exame nacional apresentará sempre um texto-estímulo, um enunciado que inicialmente o contextualiza ou o resume e – o mais importante – uma última oração que apresenta um comando que deve ser atendido. Vejamos um exemplo:

(Disponível em www.ccsp.com.br
Acesso em: 26 jul.2010 – adaptado.)

O anúncio publicitário está internamente ligado ao ideário de consumo quando sua função é vender um produto. No texto apresentado, utilizam-se elementos linguísticos e extralinguísticos para divulgar a atração “Noites do Terror”, de um parque de diversões. O entendimento da propaganda requer do leitor
a)      a identificação com o público-alvo a que se destina o anúncio.
b)      a avaliação da imagem como uma sátira às atrações de terror.
c)      a atenção para a imagem da parte do corpo humano selecionada aleatoriamente.
d)      o reconhecimento do intertexto entre a publicidade e um dito popular.
e)      a percepção do sentido da expressão “noites do terror”, equivalente à expressão “noites de terror”.

Note que essa questão exige em primeiro lugar que se entenda que a imagem faz parte de uma propaganda. Além disso, deve-se perceber o que está sendo retratado: um pé com uma etiqueta colada ao dedo, o que remete ao processo de identificação de cadáveres em um necrotério. Dessa forma, o estudante com competência linguística capta uma referência a algo macabro – coerente com o produto divulgado. Além disso, o examinando tem que mostrar inteligência ao notar que a grande jogada do anúncio publicitário é tornar sua mensagem chamativa e para isso é bastante comum o emprego de jogos de linguagem, como o que aconteceu na frase “Quem é morto sempre aparece”, que surpreende ao inverter o dito popular “Quem é vivo sempre aparece”. Assim, depois de feita essa análise, o candidato já tem em mente qual é a resposta antes mesmo de saber as alternativas apresentadas. Seu trabalho será entender a proposta, apresentada na última oração do enunciado, e a partir de então meramente localizar a resposta correta, sem se preocupar com a eliminação das erradas. Quem não entende essa dinâmica acaba muitas vezes caindo em um problema muito comum: achar que mais de uma alternativa está certa. Na verdade, quem incorre nesse erro, ou não conhece a matéria cobrada, ou não entende o texto-estímulo, ou (aqui está a falha comum e mais simples de ser evitada) não leu atentamente o comando apresentado na última oração do enunciado.  
Por fim, há que se tomar cuidado quanto à redação, que tradicionalmente lida com problemas sociais. O examinando deverá primeiramente entender qual a proposta apresentada para então buscar no conjunto de textos-estímulo ideias que embasarão o seu ponto de vista dissertativo, sempre tendo em mente uma intervenção que solucione o problema debatido e que respeite os direitos humanos.
Enfim, a proposta do ENEM, apesar dos tropeços que o arranharam, é muito bem intencionada: avaliar o aluno dotado de competência linguística, aquela que fará, pois, um profissional e um cidadão eficiente. Resta então aO Magriço Cibernético desejar que seus leitores tenham um excelente desempenho neste final de semana. Boa prova a todos!



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