Há um trecho interessante (entre tantos)
de “Meninos e Meninas”, do álbum As
Quatro Estações (1989), do Legião Urbana: “Eu canto em português errado
(...) / Troco as pessoas / Troco os pronomes”. De fato, nessa composição o interlocutor
é tratado pela segunda pessoa (“Te fiz comida, velei teu sono / Fui teu amigo,
te levei comigo / E me diz (...)”, “Me deixa ver como viver é bom”, “Acho que
te amava, agora acho que te odeio” ) e também pela terceira (“Você me deixou
sentindo tanto frio”, “Você não quis tentar me ajudar”), o que constitui
cruzamento de pessoas. Entretanto, não se trata do que é comumente rotulado de “português
errado”.
A língua é um ato humano e como tal está
sujeita a variações, todas legítimas. Na verdade, o que se diz português
correto, o bom português, o mais apegado às normas gramaticais, é apenas uma entra
tantas variedades. A mais prestigiada, é verdade, já que associada à classe
alta. Curiosamente, nem esse estrato social sabe usá-la perfeitamente. Constantemente
vemos pessoas bem conceituadas cultural e economicamente falarem “a gente” ao
invés de “nós”, “vou fazer” ao invés de “farei”, “o livro que gosto” ao invés
de “o livro de que gosto” ou até mesmo esquecendo de vez em quando o “s” que
marca o plural.
O mais importante, entretanto, não é se
preocupar em corrigir desvios da norma culta, mas ter em mente que a linguagem,
como uma manifestação humana (nunca é demais repetir), é uma atividade social
e, portanto, apresenta formas de adequação. Assim, em uma entrevista de
emprego, por exemplo, é apropriado manter-se o mais próximo do padrão
gramatical, evitando marcas de coloquialidade. O que não quer dizer que esse
padrão é sempre válido. Basta lembrar uma antiga propaganda que o Ministério da
Saúde espalhou em outdoors pelos idos
dos anos de 1990: “Se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar”. Qualquer “correção”
faria a mensagem fracassar, pois não seria tão eficiente na sua comunicação direta
com o grande público. Compare e pasme: “Se tu não te cuidares, a AIDS
pegar-te-á”; “Se você não se cuidar, a AIDS pegá-lo-á”.
Enfim, se existe um bom português, esse
será aquele em que a competência da comunicação se manifesta, atentando-se,
portanto, à adequação de contexto. Assim, uma pessoal que usa linguagem formal
em conversa de boteco soaria pedante, da mesma maneira que o uso de gírias e
coloquialismos soaria desrespeitoso diante de autoridades.
Literatura da FUVEST-UNICAMP 2014
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Se voce for levar em conta os lugares onde é necessario utilizar a norma culta, com certeza voce sera obrigado a usa-la. Se for num grupo de amigos e tentar usar da norma padrao será vexado.
ResponderExcluirComo a musica é um movimento que preza alcançar todas as camadas populares, ela em si nao deve ter muitos modismos , senao nao fará o papel que a ela foi imposto.
A lingua padrao é bonita, mas devemos ficar atentos onde devemos emprega-la
Concordo com suas observações. O mais importante a observar é a questão da adequação!
ExcluirEntre os 11 tipos de gramática que eu tenho estudado (muito!), acredito que a gramática internalizada é a mais justa e abrangente. Não se trata de certo e errado, mas, sim, de adequado e inadequado. Por exemplo, dizer "então o velho bateu as botas?" no enterro do pai do amigo é inadequado, pois a mensagem pode ser mal interpretada, pode sugerir gozação (caso a intenção não seja justamente essa, claro). A mesma frase, dita pelo Datena enquanto dá a notícia da morte de um assassino, traficante, estuprador, é adequada, já que o morto não desperta qualquer respeito em nenhum dos telespectadores.
ResponderExcluirA norma culta deve ser utilizada quando a situação exige. A norma culta tenta impedir que a língua mude; mas uma língua que não muda é uma língua morta. A gramática tradicional despreza todas as variedades diferentes da padrão, e oferece uma visão parcial e preconceituosa da língua, pois, como vc disse, se baseia em fatores ligados às classes sociais de prestígio.
Surgiu para ajudar os falantes a entenderem a língua que falam, mas acaba dizendo a todos que eles não conhecem seu próprio idioma.
#ChupaPasquale
#AquiÉBechara
Que orgulho que me dá ler os seus textos! Pensar que você já foi minha aluna!
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